quarta-feira, 19 de maio de 2010

Restauração do Teatro Municipal desagrada a frequentadores, mas Iphan diz que obras seguiram critérios rígidos

POLÊMICA EM CENA


Publicada em 18/05/2010 às 23h16m
Cláudio Motta - O Globo - 18/05/2010
    O Teatro Municipal, após minuciosa obra de restauração: embora a casa não tenha sido reaberta oficialmente, frequentadores que tiveram acesso ao local criticaram detalhes da reforma / Foto de Marco Antônio Teixeira - O Globo
    RIO - A polêmica entrou em cena na reforma do Teatro Municipal. Algumas novidades estão sendo criticadas por frequentadores, que já vêm tendo acesso à casa desde o primeiro dia de maio, antes da reabertura oficial. Elevadores parados, mudanças nos banheiros - que também teriam enfrentado falta d'água - e a mudança dos balcões que ladeavam o fosso dos músicos estão entre as principais queixas. A reinauguração está marcada para o dia 27, apesar de ter sido inicialmente anunciada para o dia 14 de julho de 2009, quando houve a celebração do centenário do prédio.
    - Uma casa centenária não pode ter aquela luminosidade toda. As poltronas foram forradas com veludo, o que não é adequado para o nosso clima. As cadeiras vão ficar engorduradas. E, pior, tiraram o grande balcão. Fizeram uma parede lisa, sem estética alguma - reclamou Rosane Guimarães Machado, arquiteta e ex-aluna da escola de dança do teatro.
    Frequentadora diz que banheiro não tinha água
    O banheiro também foi alvo de reclamações. Frequentadores sentiram falta de louças antigas e estranharam a modernização feita no local. Também houve problemas de conservação:
    - O banheiro estava sem água, mas estava liberado para o uso. Imagine o caos. Na saída, os dois elevadores estavam enguiçados - disse a aposentada Maria Zocatelli.
    Procurada pelo GLOBO, a direção do teatro não retornou as ligações. Uma carta enviada ao jornal e assinada por Maria Regina Pontin de Mattos, diretora-geral do Instituto Estadual do Patrimônio Artístico e Cultural (Inepac), e por Carlos Fernando Andrade, superintendente do Iphan, informa que a porcelana inglesa dos banheiros masculino e feminino foi mantida nos locais em que estavam: no balcão nobre e no salão Assyrius. A carta afirma ainda que os demais banheiros já tinham sofrido alterações nas décadas de 70 e 80. E que espelhos e luminárias foram recolocados em outros espaços. As torneiras teriam sido substituídas por causa de ferrugem.
    Quanto à claridade, a carta sustenta que o problema "talvez reflita a necessidade de ajustes que já estão sendo feitos", já que todas as lâmpadas podem ter sua intensidade controlada. Ainda de acordo com a carta, os balcões que ladeavam o fosso da orquestra no nível da plateia não eram originais e foram recuados para acomodar músicos e instrumentos. A carta diz ainda que os novos balcões deverão ser remodelados com os mesmos ornatos e que certos trabalhos de restauro terão prosseguimento mesmo após a reinauguração.
    Em entrevista ao GLOBO, o superintendente do Iphan no Rio, Carlos Fernando Andrade, disse que é natural haver críticas e que é impossível agradar a todos. Ele esclareceu, no entanto, que os especialistas envolvidos na obra tiveram a preocupação de descaracterizar o mínimo possível.
    É impossível agradar a todos. Não mentimos para a História
    - Esta é a maior restauração do Rio desde 2006, quando estou no Iphan. É impossível agradar a todos. Não mentimos para a História. O banheiro é um padrão moderno. Inclusive em relação ao balcão, que ficou liso, neutro. Claro que poderíamos fazer todo o rendilhado de novo, mas seria falso. As pessoas possivelmente achariam que sempre foi assim - explicou Carlos Fernando, citando, também, a alteração na fachada para permitir o acesso de cadeirantes pela Avenida Rio Branco.
    Presidente da Associação Brasileira de Conservadores de Bens Culturais, Thais Helena de Almeida Slaibi diz que a restauração é um trabalho em equipe, que tem que levar em consideração toda a história do bem a ser preservado:
    - Na Capela Sistina, os personagens foram pintados originalmente nus na imagem Adão e Eva expulsos do paraíso, de Michelangelo. Com a intervenção da igreja, foi colocada a folhinha de parreira. Para não alterar a história da peça, a folha foi mantida na restauração.
    Especialista em patrimônio, Márcia Chuva, historiadora e professora da UniRio, diz que é importante ter bom senso:
    - A restauração é uma prática que tem que ser conciliadora e sua ação tem que ser transparente, de preferência sem esconder os vestígios da História. Por isso, muitas vezes está envolvida em críticas.
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