segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A nova paisagem carioca no sonho dos arquitetos


O globo, Ludmilla de Lima, 07/ago
Uma estratégia prevista no projeto do novo Plano Diretor do Rio para conservar imóveis em Áreas de Preservação Ambiental (Apas) e de Preservação do Ambiente Cultural (Apacs) se soma à lista de polêmicas do projeto. Em muitos casos, esses imóveis protegidos ficam em bairros onde a legislação permite prédios não tombados mais altos. A ideia em discussão na Câmara de Vereadores é aplicar um recurso conhecido como transferência do potencial construtivo. Esses parâmetros, que não podem ser usados naquela área, seriam adotados em outra região, gerando valorização da área.
Os lucros da operação seriam aplicados na recuperação e na conservação de áreas protegidas. A estratégia é criticada por especialistas e também pela prefeitura, que quer barrar a ideia antes que ela chegue ao plenário.
A proposta consta de uma versão do Plano Diretor elaborada durante o ultimo governo Cesar Maia (2005-2008). O prefeito Eduardo Paes, ao encaminhar uma nova versão do Plano Diretor há quase um ano, manteve por engano a sugestão. O problema é que, na atual fase de discussão, o Executivo não pode apresentar emendas. O governo tenta agora convencer os membros das comissões de Revisão do Plano Diretor, Justiça e Redação e Orçamento a retirar o dispositivo. As comissões se reúnem segunda-feira para discutir o texto que irá a plenário.
Se depender da criatividade de arquitetos brasileiros e internacionais, a paisagem do Rio e a vida dos cariocas será bem diferente a partir de 2014. A escolha da cidade como sede da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016 vem estimulando uma profusão de projetos, alguns viáveis, outros nem tanto. No primeiro caso está, por exemplo, a proposta da dupla de arquitetos João Pedro Backheuser e Leonardo Lattavo, com escritórios na Zona Sul, que cria um sistema de transporte aquático na Lagoa Rodrigo de Freitas. O objetivo é encurtar o tempo de viagem entre os bairros de Ipanema, Leblon, Jardim Botânico, Humaitá e Gávea, além de oferecer uma nova opção de lazer num dos mais belos pontos da cidade.
Segundo a proposta, entregue à prefeitura e a empresas privadas, a circulação seria feita por barcos a motor (táxis aquáticos), com embarque e desembarque de passageiros em sete estações: na altura do Jardim de Alah, da Rua Maria Quitéria, do Parque do Cantagalo, do Túnel Rebouças, do Parque Lage, do Clube Piraquê e do Parque dos Patins.
O projeto inclui ainda a criação de um bar flutuante. A dupla que inventou o sistema espera que o município compre a ideia. A prefeitura, afirmam os arquitetos, ainda não respondeu se há interesse em executar o projeto.
- Não temos a ambição de resolver o problema do trânsito na Lagoa, mas é mais uma alternativa de transporte que estamos apresentando. Já levei 40 minutos para ir do Piraquê ao Jardim de Alah de carro. Levaria cinco se estivesse num barquinho na Lagoa. Como a Linha 4 do metrô prevê uma estação no Jardim de Alah, uma pessoa que mora no Jardim Botânico poderia pegar um barquinho até lá e então embarcar no metrô até o trabalho no Centro - diz João Pedro Backheuser, do escritório Blac.
Os criadores do projeto ainda não sabem dizer quanto custaria a sua implementação, nem que barcos poderiam ser utilizados. Esses e outros detalhes ainda dependem de estudos de viabilidade. Mas os arquitetos ressaltam o caráter sustentável do plano, cuja proposta é usar equipamentos não poluidores para o transporte.
- Essa é uma proposta preliminar, que prevê um bar flutuante, um espaço para você contemplar a cidade de um ângulo diferente. Da ilha, você poderia parar para ver uma regata e um campeonato de remo - conta Leonardo Lattavo, do escritório Lattoog. - O projeto foi motivado pela possibilidade de melhorias na cidade com as Olimpíadas, mas com a preocupação de deixar um legado, aproveitando o momento de muitos investimentos no Rio.
Mais extravagante é a proposta do estúdio Rafaa Design, em Zurique, na Suíça, do arquiteto Rafael Schmidt. O projeto, que prevê uma torre, batizada de Solar City Tower, na Ilha de Cotunduba, próxima ao Leme, foi criado para participar de um concurso internacional de caráter apenas acadêmico, promovido pela empresa Arquitectum, especializada em competições de arquitetura, em 2008, em parceria com a Universidade Estácio de Sá. O foco era criar um marco olímpico para o Rio na ilha, que é protegida por decreto municipal. O projeto não ganhou o concurso, mas vem circulando na internet e causando polêmica.
Segundo Schmidt, a proposta da torre é servir como ponto turístico, símbolo de boas-vindas para quem chega ao Rio pelo ar e pelo mar e ainda como geradora de energia para a vila olímpica e parte da cidade, seguindo a filosofia do "edifício-máquina". Isso seria feito por meio de painéis para a captação de energia solar. Haveria ainda uma cascata no lado externo, com água do mar, que geraria energia à noite. O local teria ainda anfiteatro, café, um terraço de observação e uma plataforma para saltos de bungee jump. A torre "poderá, talvez, até virar um símbolo para os primeiros Jogos Olímpicos com emissão zero de carbono", diz o projeto.

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