quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Sem o poder público, a defesa civil se faz em casa


Moradores de áreas afetadas por chuvas montam planos de prevenção e emergência

POR FRANCISCO EDSON ALVES = O Dia - 29/09/2010
Rio - Um homem guarda o bote salva-vidas no quintal e outro limpa bueiros. Todos se revezam na vigilância e providenciam obras para impedir a invasão das águas da chuva em casas. Cansados de esperar pelo poder público, moradores da Região Metropolitana do Rio criam métodos de prevenção e planos emergenciais para enfrentar catástrofes naturais. Segunda-feira, a tragédia das chuvas que arrasaram o estado, deixando 235 mortos, completa seis meses. Até hoje, há quem viva em abrigos provisórios.
No quintal da vizinha, Alcir e barco para emergências: resgate de idosos e crianças | Foto: Severino Silva / Agência O Dia
No Conjunto da Marinha do Colubandê, São Gonçalo, as tarefas são divididas. Todo dia, o padeiro Antônio Rodrigues de Aguiar, 49 anos, arregaça as mangas para limpar bueiros e capinar as margens das ruas Expedicionário Hugo Gonçalves e Augusto Husch, que circundam o condomínio e onde terreno baldio, em frente à Escola Municipal Paulo Roberto Macedo do Amaral, virou lixão. Em abril, 3 mil pessoas ficaram isoladas nos 15 blocos do condomínio, após valão transbordar.

“A água chegou ao teto dos apartamentos do primeiro andar, e muita gente perdeu tudo. Não queremos que a tragédia se repita. Mas, se ficarmos esperando ajuda do governo municipal, passaremos pela mesma situação no próximo verão”, prevê Aguiar. Na região, pedestres como Odete Roque, 42, se arriscam entre os carros ou são obrigados a pular sobre buracos de esgotos abertos nas calçadas, tomadas por matagais.

Na Rua Geraldo Silva, também no Colubandê, onde as marcas das cheias de abril atingiram 2 metros e ainda estão nas casas, a moradora Sílvia Silvério, 43, mantém barco a remo de prontidão no quintal para emergências. “Em abril, essa embarcação ajudou a tirar idosos e crianças dos imóveis. O aguaceiro da rua se misturou ao Rio Alcântara, que corta o bairro, e que deveria ter sido dragado, mas, até hoje, nada foi feito”, reclama o ajudante de produção Alcir Leite, 42, vizinho de Sílvia.
Edmundo Carlos Leite, 70, conta que, em época de temporais, os vizinhos se revezam para dar o alerta, caso o Rio Alcântara comece a transbordar. “Só podemos contar mesmo com a solidariedade entre nós. Enquanto um dorme, outro fica de olho no rio. Fazemos o papel da Defesa Civil”, queixa-se. “Do alto do meu apartamento, no oitavo andar, ajudo a avisar os vizinhos que moram nos andares mais baixos sobre alagamentos repentinos”, conta Nazaré Andrade de Abreu, 53.
Em Neves, moradores da Rua Marechal Floriano Peixoto tentam conter as enchentes construindo muretas de alvenaria na porta de suas casas. “É humilhante”, desabafa Valéria da Silva, 48. “Quem tem problemas de saúde pena para transpor essas barreiras”, diz Maria da Paz Moreira César, 52. “Meu filho de 5 anos já caiu nesse valão imundo de esgoto que corta a rua e se mistura às águas de chuva”, completa Cátia Alves, 38.
Ventos e chuvas fortes até o fim de semana
Rajadas de vento devem atingir a cidade a partir da tarde de hoje, junto com chuva forte. Segundo o Instituto Climatempo, embora a temperatura possa subir amanhã, o tempo abafado e as chuvas no final do dia devem durar até o fim de semana, quando volta a chover.

Ontem, o mau tempo fez o Aeroporto Internacional do Galeão, na Ilha, funcionar por instrumentos o dia todo.
O trânsito do Rio ficou lento e as pistas escorregadias favoreceram acidentes. Um ônibus bateu em poste, em Jacarepaguá. No Centro, um táxi e um carro de passeio colidiram no Elevado 31 de Março, próximo à chegada ao Elevado São Pedro e São Paulo. Uma vítima foi levada ao Hospital Souza Aguiar.
Prefeituras dizem ter plano contra riscos
Em nota, o coordenador da Defesa Civil de São Gonçalo, Cláudio Lucena, garantiu que o Plano Municipal de Redução de Riscos está pronto para ser posto em prática no verão, mas não deu detalhes. Ele diz que o órgão vem monitorando áreas com maior incidência de desastres. O município contaria ainda com Plano de Contingência para dar atendimento ágil às vítimas da chuva.

Em Niterói, 3.164 famílias desabrigadas pelos temporais de abril, que mataram mais de 80 pessoas, ainda recebem aluguel social. O município admite que há vítimas que não receberam nenhuma parcela do benefício, mas diz que já pediu ao estado novo convênio. Outros 500 desabrigados ainda moram provisoriamente em unidades do Exército. A prefeitura enviou à Câmara projeto para criar o Geo-Nit, que faria estudos contra riscos.

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