sexta-feira, 5 de maio de 2017

O Rio de Janeiro passado a limpo

04/05/2017 - O Globo 

Simone Candida

Se uma ideia do "tempo do Onça" tivesse vingado, o Centro do Rio de Janeiro poderia hoje ser uma região cortada por vários canais navegáveis, semelhante à cidade de Veneza, na Itália. É que durante seu mandato, o governador-geral Luís Vahia Monteiro (1725 a 1732), conhecido como Onça, sugeriu a construção de um grande canal interligando o Saco de São Diogo (hoje Canal do Mangue, na Avenida Presidente Vargas) à Lagoa do Boqueirão (onde está o Passeio Público) como uma solução urbanística para tornar a mobilidade mais eficiente no século XVIII.

A preocupação com os mosquitos e a aversão ao mau cheiro de águas paradas fizeram o projeto ser rejeitado pela população. A solução foi a canalização e a drenagem de rios e mangues, além do aterro de áreas alagadiças. Essa é uma das histórias que o arquiteto Washington Fajardo e a pesquisadora Patrícia Pamplona contam no livro "Transformações Urbanísticas", da ID Cultural, que será lançado hoje, às 19h, na livraria Argumento, no Leblon. Com mais de 200 imagens, entre fotos, mapas e gravuras históricas, a publicação se propõe a traçar um panorama ilustrado da evolução da cidade, a partir de marcos arquitetônicos e das mudanças urbanísticas ocorridas em quase 500 anos.

- São muitos os atores que determinam a linguagem histórica do desenvolvimento de uma cidade, e o planejamento urbano tem a função de ordenar algumas dessas forças. O livro quer mostrar isso - explica Washington Fajardo.

Do período colonial - em que o primeiro núcleo de ocupação da cidade orbitava em torno do Morro do Castelo - até os dias atuais, em que o município passa por uma fase de revalorização do Centro, fruto da recente revitalização da Zona Portuária, o Rio conviveu com diversos movimentos de expansão, que culminaram com a abertura de bairros e a criação de novas regiões urbanísticas. Foram aterros, derrubadas de morros, alargamentos de vias, construções de prédios públicos e criações de praças e parques que ajudaram - e ainda hoje ajudam - a formar a identidade urbana carioca.

- O livro é uma espécia de álbum de fotografias e iconografias que mostram as transformações pelas quais a cidade passou, com destaque para os principais planos urbanos apresentados até hoje - diz Patrícia Pamplona.

Entre os planos relembrados, está o Beaurepaire, primeiro projeto urbano apresentado para a cidade, em 1843, pelo engenheiro militar Henrique Pedro Beaurepaire-Rohan, diretor de obras do Rio. O programa, que não chegou a ser aprovado, apresentava soluções para a "salubridade pública e o aformoseamento do município e dos cômodos de seus habitantes". Entre as medidas de saneamento, constava o fim do despejo de dejetos nas praias e o "arrasamento do Morro do Castelo" como soluções para salubridade e embelezamento da cidade, ideia que seria ressuscitada e efetivamente executada em 1922, com a derrubada total do morro.

Viver no Rio de Janeiro foi vencer o desafio de conviver com a natureza.

- A dificuldade de enfrentar a topografia marcou esses movimentos espasmódicos que o Rio de Janeiro fez. Ele vai primeiro numa direção da Zona Norte. Depois, gira e vai para a faixa litorânea, de Copacabana partir do século XX. Quando chega à Barra, já venceu o Maciço da Tijuca e chegou a outra região. É uma reflexão importante porque, hoje, do ponto de vista viário, de mobilidade, é relativamente mais fácil contornar esses maciços de montanhas. Mas isso não quer dizer que a gente deva promover essa expansão, porque a reflexão final do livro é que esse modelo leva a um esgotamento - ensina Fajardo.

As histórias de quatro bairros contextualizam os movimentos de expansão do Rio: Centro, São Cristóvão, Barra da Tijuca e Copacabana.

- A ocupação do Centro é o ato original de formação do Rio. Depois, temos a ocupação de São Cristóvão: com a mudança da família real para a Quinta da Boa Vista acelerando a expansão rumo à Zona Norte. Já Copacabana simboliza a mudança radical dessa lógica de crescimento, a partir da inauguração do Copacabana Palace e da abertura do Túnel Alaor Prata. E a Barra é o momento de expansão para a Zona Oeste - resume Fajardo.

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