quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Após 39 anos, esqueleto na floresta vai virar hotel

28/09/2011 - O Globo, Rogério Daflon

Empresa arremata o Gávea Tourist e prefeitura diz que prédio será usado para reduzir déficit de quartos nos Jogos

Pelo valor de R$ 29,95 milhões, o esqueleto do Gávea Tourist Hotel - um prédio inacabado de 16 pavimentos, 480 apartamentos e área construída de 30 mil metros quadrados encravado na Mata Atlântica de São Conrado - foi arrematado anteontem em leilão na 5ª Vara Cível. O uso do imóvel tem destino certo. De acordo com o secretário municipal de Urbanismo, Sérgio Dias, o empreendimento se transformará num hotel:

- A prefeitura só vai licenciar um projeto hoteleiro, que era o original. O pacote olímpico municipal estimula a construção de hotéis para diminuir o nosso déficit de quartos. E um hotel ali vai valorizar a região e causar menos impacto ao meio ambiente do que um prédio residencial.

Empresa compradora é especializada em eventos

O comprador é a FJ Produções Ltda. Trata-se de uma empresa com sede em Brasília, que, em seu site, se apresenta como uma companhia especializada em eventos, como congressos, feiras, shows, palestras e reuniões corporativas. O GLOBO tentou entrar em contato, por telefone, com a direção da empresa, mas não teve retorno. O megaedifício inacabado está próximo da terceira idade. Começou a ser construído em 1953 pela Companhia Califórnia de Investimentos e teve a obra interrompida em 1972. A Califórnia foi à falência cinco anos depois e mais de mil cotistas passaram a exigir seus direitos.

Dias afirma que hoje um edifício desse porte jamais contaria com aprovação de licença da prefeitura. Isso porque aquela área - na Estrada das Canoas e próxima ao Parque Nacional da Tijuca - integra a Zona Especial 1, com grandes restrições em termos de licença, inclusive a de número de pavimentos - no máximo, dois. Segundo o secretário, a lei municipal 44/2000, conhecida como a "Lei dos Esqueletos", assegura o término de obras não concluídas. Além disso, os cotistas garantiram na Justiça o direito de continuidade da obra.Na licença, a ser concedida pela prefeitura, serão cobradas contrapartidas ambientais. O hotel, por exemplo, terá de contratar mão de obra local, provavelmente da comunidade de Vila Canoas. A FJ Produções terá de apresentar um projeto no qual o conceito de sustentabilidade esteja presente. A empresa também terá de mitigar os impactos viários a serem produzidos pelo hotel. Impactos, aliás, preocupam a população da área. Cerca de 500 moradores enviaram à prefeitura um abaixo-assinado, no qual pedem a demolição da construção.

Ao saber da venda do esqueleto, o jornalista Cláudio 'Chagas Freitas, que assinou o documento, reforçou a apreensão dos moradores da Estrada das Canoas:

- Temos problemas de abastecimento de água, luz e uma precária rede de esgoto. Além disso, o tráfego da região é terrível nos fins de semana, com o movimento de turistas e esportistas de asa-delta. Por isso, na minha opinião, o que caberia aqui seria um prédio com 30 apartamentos, no máximo.

Iphan aprova o novo empreendimento

Em nota, a Associação dos Moradores e Amigos de São Conrado (Amasco) explicou por que não se opôs à venda do esqueleto, acentuando que as autoridades descartaram a demolição do imóvel, para assegurar os direitos dos representantes da massa falida. "Diante disso, não vimos alternativa senão apoiarmos a reativação do local, mediante um novo planejamento de mobilidade urbana, ambiental e de infraestrutura", diz a nota.

A assessoria de imprensa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) informou que a instituição já aprovara a continuidade do empreendimento imobiliário, mas vai fiscalizá-lo no decorrer da obra.

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