segunda-feira, 9 de abril de 2012

Hotel com X

08/04/2012 - O Globo, Fabio Brisolla

O Glória Palace de Eike Batista será reaberto às vésperas da Copa de 2014, vai consumir R$ 300 milhões em obras e quer figurar entre os dez mais do... planeta

Inaugurado em 15 de agosto de 1922, o Hotel Glória era um ponto estratégico. Ficava a apenas 1,5 quilômetro do Palácio do Catete, na época, sede do governo brasileiro. A  proximidade entranhou no lugar uma identidade com o poder que se estendeu por décadas. Epitácio Pessoa esteve na cerimônia de abertura na condição de presidente da República.  Foi o primeiro de uma série que incluiu Getúlio Vargas, Ernesto Geisel e Juscelino Kubitschek. O Glória serviu de residência para deputados, senadores e ministros, um fluxo de  hóspedes ilustres só reduzido após a transferência da capital para Brasília, em 1960. Entretanto, ainda passaram por lá os presidentes José Sarney, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.
Oitenta anos depois, a história de um dos ícones da hotelaria carioca ganha novo capítulo, sob administração do empresário Eike Batista, o sétimo homem mais rico do mundo, que o  arrematou por estimados R$ 80 milhões em 2008. Desde então, o local fechou suas portas, o projeto inicial mudou, o cronograma atrasou, o BNDES liberou R$ 146,5 milhões e o curso  da reforma virou um mistério. Nas últimas semanas, a Revista O GLOBO visitou o canteiro de obras e teve acesso a detalhes do projeto.
Rebatizado de Glória Palace Hotel, o edifício segue na fase das fundações. Por trás da fachada, praticamente tudo foi demolido. Restaram apenas as colunas de sustentação e as lajes,  que vão ganhar reforços. Internamente, não há vestígios da arquitetura neoclássica anterior. O termo reforma, aliás, parece inapropriado. O que está em andamento é uma reconstrução, com metas ambiciosas. O plano é desbancar o Copacabana Palace, o Fasano (em Ipanema ou nos Jardins), o paulistano Emiliano e outras centenas de hotéis cinco  estrelas espalhados pelo planeta. - Nosso empenho é para que o Rio tenha um dos dez melhores hotéis do mundo - informa Eike Batista, em entrevista por email à Revista O GLOBO. Tarifas ainda não entraram na pauta, mas elas devem concorrer com as cobradas pelo Copa (de R$ 1.140 a R$ 5.600) e pelo Fasano (de R$ 1.330 a R$ 6.640).

Um símbolo do novo empreendimento promete ser a piscina, com fundo transparente, instalada na cobertura sobre o vão retangular existente entre os blocos de apartamentos. O  hóspede que transitar pela grande área de circulação do segundo andar, ao olhar para cima, poderá conferir a movimentação dentro do "aquário humano". O hotel vai manter os dez pavimentos, seguindo o padrão do edifício de 1922, que sofreu alterações ao longo dos anos, inclusive na fachada. Em todos os níveis, as paredes internas foram derrubadas para  atender às novas divisões estabelecidas. Os 610 quartos do antigo Glória serão convertidos em 346 unidades mais amplas. Reservou-se um espaço de 550 metros quadrados para um  salão idealizado para convenções e festas de casamento, neste último caso, tirando proveito da proximidade com o Outeiro da Glória. O Palace de Eike terá ainda três restaurantes, dois bares, um espaço definido como music lounge, cinco lojas e 18 salas de reunião. O polêmico heliponto, que tirava o sono da vizinhança, será
mantido.
O projeto acabou marcado também por uma ausência, o Teatro Glória, eliminado da estrutura ao longo da concepção do remodelado prédio. - Não condiz com a trajetória de grande empresário destruir um teatro com a história do Glória - critica Eduardo Barata, presidente da Associação dos Produtores de Teatro do Rio. - O Eike Batista disse publicamente que  pretendia erguer um outro teatro no bairro. E não se fala mais sobre esse assunto. Entre 1999 e 2001, a atriz Maria Padilha exerceu a função de diretora do Teatro Glória. Por lá, ela promoveu um show de Elza Soares, uma montagem de "Lisbela e o prisioneiro", dirigida por Guel Arraes, e uma leitura de textos de Nelson Rodrigues com participação de Marília Pêra. - É uma coisa bonita haver um teatro na rua, com fachada, letreiro. Todas as grandes cidades preservam casas assim - avalia Maria Padilha, que destaca a importância de haver uma conciliação. - Também não adianta ficar chorando pelo que não existe mais. O Eike é um cara que gosta do Rio. Acho que ele não va
i deixar essa história cair no esquecimento. Ele poderia buscar uma alternativa ali por perto, como, por exemplo, reativar o Teatro Adolpho Bloch.
Em outubro de 2010, o grupo EBX, em comunicado oficial, informou que "o projeto do Hotel Glória garante uma contrapartida cultural para a cidade, ainda a ser estudada e anunciada  até o fim do ano". Um ano e meio depois, ao ser questionado sobre o assunto, Eike escreveu resposta similar: - O compromisso de uma alternativa para a cidade ao teatro que antes  havia no hotel permanece, e vamos cumprir. Estamos buscando ainda o melhor projeto para devolver um novo teatro ao Rio. Situado no número 632 da Rua do Russel, o Hotel Glória foi construído pelo empreiteiro Rocha Miranda a poucos metros do mar, antes da existência do Aterro do Flamengo. Em maio de 1949, o engenheiro italiano Arturo Brandi adquiriu o prédio e passou a administrá-lo com a ajuda do sócio Eduardo Tapajós, que posteriormente assumiu o comando do hotel. Tapajós morreu em 1998, num acidente de helicóptero. Sua mulher, Maria Clara, a herdeira do patrimônio, foi quem negociou com Eike Batista.
O valor da venda, oficializada em 2008, girou em torno de R$ 80 milhões. Na época, Eike afirmou que gastaria a mesma quantia na reforma. Dois anos depois, o empresário conseguiu um empréstimo no BNDES de R$ 146,5 milhões para executar a obra. Nesta fase, o custo anunciado de revitalização do Glória já era outro, ultrapassando a marca de R$ 200 milhões. O recurso obtido no BNDES é parte de uma linha de crédito de R$ 1 bilhão que busca contribuir com a expansão da rede hoteleira nacional em função da Copa do Mundo de 2014. A REX,  de Eike, e a GB Copacabana Administração Hoteleira foram as primeiras beneficiadas pelo banco do governo federal. Até hoje, além da REX, sete empresas foram contempladas pelo programa batizado de BNDES ProCopa Turismo. Juntas, as outras receberam um total de R$ 130,5 milhões. Segundo a REX, os valores do Glória continuam subindo. No cálculo mais recente, a reconstrução já deve atingir a marca de R$ 300 milhões. Eike atribuiu as cifras atuais às mudanças realizadas no projeto. - Na prá
tica, o novo conceito de hotel de luxo, o retrofit para manter boa parte da estrutura e a fachada original elevaram o custo inicial - justifica o dono da EBX. - Não estamos poupando recursos para recuperar e manter a  originalidade do prédio! Nosso plano foi ajustado para equacionar o déficit hoteleiro na cidade, em especial depois da vitória do Rio como sede das Olimpíadas.

No canteiro de obras, operários e engenheiros estão em plena atividade. O trabalho ocorre simultaneamente no edifício principal e no anexo. Além disso, um terceiro prédio será  erguido entre as duas construções num espaço onde existe uma rocha, que vem sendo recortada paulatinamente. Os engenheiros envolvidos na obra ressaltam que não foi necessário usar um explosivo sequer, como costuma ocorrer em situações semelhantes. Para extrair cada pedaço, eles recorrem a um equipamento especial que vai cortando a pedra aos poucos,  sem barulho ou tremores no solo.

Com tantas atividades em andamento, o desafio é manter a frente do prédio intacta. O Hotel Glória não é tombado por qualquer órgão de patrimônio histórico, seja federal, estadual ou  municipal. Mas, curiosamente, a fachada acabou preservada por causa do Edifício Milton, um prédio residencial na Rua do Russel, que integra a lista de imóveis tombados. - A fachada do Glória é preservada pelo patrimônio histórico municipal por ser classificada como entorno do Edifício Milton. É um paradoxo. O hotel é considerado um satélite do residencial, quando deveria ser o contrário - diz Washington Fajardo, subsecretário municipal de Patrimônio Cultural, Intervenção Urbana, Arquitetura e Design. Ele ressalta, no entanto, que a  arquitetura neoclássica da construção acabou ofuscada pela ação de seus antigos proprietários: - O hotel passou por diversas reformas que nunca respeitaram suas características originais. Ao longo dos anos, ele foi sendo descaracterizado. E talvez por isso não tenha sido alvo direto do patrimônio histórico.

Para manter a fachada no lugar, um outro prédio vem sendo erguido por  dentro do antigo. Novas colunas de sustentaçãovão dar suporte às lajes, que serão reforçadas. Até agora,  segundo informou a REX, 50% das fundações da estrutura adicional já estão concluídas. Encerrando esta parte, a obra começa efetivamente a subir, andar por andar. - É uma intervenção que exige muito cuidado. Estamos reconstruindo o prédio a partir das fundações. Oitenta pilares novos vão surgir por dentro da estrutura antiga - diz Marco Adnet, CEO da REX, acrescentando que a atual fase da construção provocou boatos equivocados. - Chegaram a dizer que a obra havia parado, mas isso é uma grande bobagem. Ex-diretor nacional de vendas da Construtora Rossi, Adnet é profissional conceituado do mercado imobiliário. Ele foi contratado por Eike, em 2010, para "dar mais celeridade à operação".

Antes da chegada do executivo, a REX havia desenvolvido um projeto, assinado pelo escritório do arquiteto Paulo Casé, que previa a instalação de uma torre de escritórios no anexo  do Glória. A ideia acabou descartada. E a REX escalou o designer americano Jeffrey Beers para trabalhar em parceria com Casé. - Entre as intervenções mais importantes que fizemos  no hotel estão o novo anexo, o atrium e a piscina com fundo de vidro do terraço - cita Jeffrey. Ao seguir pela entrada principal na Rua do Russel, o hóspede vai encontrar a recepção  principal. E, acessando o elevador, vai chegar ao atrium citado por Jeffrey, uma grande área de circulação, que ficará no segundo andar. - Na versão atual, o edifício original e os dois anexos estarão integrados. Tudo fará parte do hotel. Sem divisões - explica Hamilton Casé, sócio do escritório de Paulo Casé.

Pela variedade de serviços, o empreendimento do Glória pretende atender a um grupo heterogêneo, de celebridades internacionais a turistas em busca de lazer em praias cariocas,  passando pelos executivos que vêm ao Rio a trabalho. A REX, no entanto, já definiu o projeto de um segundo hotel com 454 quartos, na Avenida Rui Barbosa, focado no turismo de negócios. O edifício pertence ao Clube de Regatas do Flamengo, que, nos últimos meses, vem negociando a instalação do hotel. Inauguração, no entanto, só depois da Copa do Mundo.  No caso do Glória, a intenção de Eike Batista era estar com tudo pronto em 2011. Mas houve um atraso em seus planos. A REX informa que o Glória Palace Hotel abre suas portas no  primeiro trimestre de 2014, em sistema de soft opening.

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