segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

De volta ao paraíso

05/01/2013 - O Globo

"Peço colonos de moralidade mais comprovada, pois os que aqui vieram estão mais interessados em andar atrás das índias nuas."
Vegetação exuberante, clima ameno, água farta, porto seguro, peixes e frutas abundantes, população amistosa - a Baía de Guanabara era o Paraíso nos primórdios de sua ocupação europeia, como sugere essa carta de Villegagnon, fundador da França Antártica (1555), ao seu mentor, o chefe calvinista Coligny.
Expulsos os franceses, foi a Guanabara que ofereceu as condições geopolíticas e topográficas para o desenvolvimento e o prestígio da cidade do Rio de Janeiro e de sua simétrica, Niterói.
Por mais de quatrocentos anos, a baía aguentou maus-tratos. Mas, nas últimas décadas, foi demais. O desmatamento assoreou seus rios, transformados em canais de esgotos. O lixo não recolhido foi carreado para ela.
Só a generosidade do mar, todos os dias invadindo as águas da Guanabara, é que ainda permite vida ante tal agressão.
Os planos de despoluição têm mais de vinte anos. Um ambicioso programa do governo do Estado, na década de 1990 arrastou-se sem resultados visíveis. Problemas de governança, problemas corporativos, projetuais e administrativos se somam para inviabilizar uma solução.
Carlos Heitor Cony diz que o "primado da burrice" imperou em determinado período de nossa história - referindo-se aos impasses que o país construiu para si mesmo. Essa atitude parece que também sustentou a ideia de que deveríamos ter ou a solução ótima ou nenhuma solução para a Guanabara.
Felizmente, a Olimpíada veio para sacudir esse conforto. O compromisso de a baía sediar competições náuticas obriga a uma resposta adequada e recomenda uma revisão de conceitos. Revisão que, como anuncia o governo do Estado, poderá ser capaz de conduzir à recuperação da baía no médio prazo. (Há modelos semelhantes já testados, sejam técnicos, como tratar os esgotos em tempo seco e os rios na foz, sejam de governança ou projetuais.) Se se efetivar, será ação re-fundadora, igualmente por razões ambientais, sociais, econômicas e urbanísticas.
O renascimento da Baía de Guanabara tem poder para reestruturar a cidade metropolitana do Rio de Janeiro. Niterói, São Gonçalo, Magé, Caxias e a Baixada, a Zona Norte do Rio, o Centro Histórico e parte da Zona Sul, as ilhas, o Porto - toda essa imensa região se beneficiará. Suas orlas e praias poderão recuperar parte do antigo fulgor. E novos vetores de desenvolvimento para a metrópole se moldarão, tendo como origem o polo Centro do Rio-Centro de Niterói.
Este momento de renovação das administrações municipais é oportuno para que prefeitos e governo do Estado possam alcançar um acordo propulsor da nova Guanabara. Tarefa de interesse geral, ultrapassa mandatos. Também por isso precisará contar com a participação da cidadania, das organizações sociais e da Academia no apoio e no monitoramento. (Gato escaldado... não dá para só esperar os resultados.)
A cidade reencontrando seu genius loci, o "espírito do lugar", como diziam os antigos: é o Paraíso de volta!
Sérgio Magalhães é arquiteto.

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