quarta-feira, 9 de julho de 2014

Anunciada para 2013, duplicação da Rio-Santos ainda não saiu do papel

08/07/2014 - O Globo

RIO — Já se vão três anos e meio desde que a promessa foi feita. Mas a duplicação dos 160 quilômetros da Rodovia Rio-Santos (BR-101), de Itacuruçá, em Mangaratiba, até Paraty, divisa com São Paulo, até hoje não aconteceu e, ao que tudo indica, está longe de se concretizar. Única grande estrada de acesso ao Rio ainda não concedida à iniciativa privada, a via continua sendo, em grande parte, uma colcha de retalhos de asfalto remendado e irregular, que apenas ano passado registrou 1.175 acidentes, com 62 mortos. O projeto de construir novas pistas foi anunciado em dezembro de 2010, quando o então ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos, inaugurou a duplicação de outro trecho, de 26 quilômetros, da Avenida Brasil até Itacuruçá. Os recursos viriam do PAC 2, e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) chegou a dar prazo até 2011 para licitar o projeto e, de 2013, para iniciar as obras. Continua tudo no plano das ideias.

Até agora, a única intervenção que saiu do papel é a recuperação de cem quilômetros entre Paraty e Angra dos Reis, a um custo de aproximadamente R$ 60 milhões. O recapeamento está pronto da divisa com São Paulo até o Frade, assim como no perímetro urbano próximo ao Centro de Angra e a Japuíba. Áreas como as proximidades do Bracuí, também em Angra, continuam em obras, que, segundo o Dnit, terminam até dezembro.

BARREIRAS CONTINUAM NA PISTA

No trecho de cerca de 60 quilômetros de Itacuruçá a Angra, no entanto, que está em pior estado, não há sinal nem de duplicação, nem de recapeamento. Há trechos esburacados, desníveis que formam lombadas e remendos mais altos do que a pista original. A sinalização no asfalto muitas vezes está apagada. E, numa região onde o solo é instável e que tem histórico de deslizamentos, se a contenção foi feita em algumas encostas, há barreiras que caíram no acostamento ou em faixas de rolamento e continuam pelo caminho. Até mato cresce nelas.

É o que acontece na altura do km 422, em Mangaratiba, onde uma grande pedra e terra obstruem quase a metade de uma das faixa. Um perigo que, na opinião de Valter Feliciano, morador de Itaguaí, é um dos maiores da Rio-Santos. Ele, que é ciclista de estrada, diz não entender por que as barreiras não são retiradas.

— É preciso ficar atento para desviar delas — afirma Valter, que ressalta ainda o transtorno dos engarrafamentos próximo a Itacuruçá. — Principalmente em épocas de grande movimento, como carnaval, os carros vêm na pista dupla e, de repente, quando chegam ao túnel de Itacuruçá, encontram o funil de uma pista única, sem acostamento.

Valter já sofreu um acidente na rodovia. Foi atingido, de bicicleta, por uma Kombi no acostamento, sofreu uma lesão no ombro e ficou dois anos sem poder treinar. Risco que se reflete nos números de acidentes. Apenas no primeiro semestre deste ano, segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), já foram 674 na Rio-Santos (contra 578 no mesmo período de 2013, ou 16,6% a mais), com 27 mortos e 129 feridos em estado grave. Dessas ocorrências, a maior parte (294 ou 43,6%) aconteceu no trecho de Angra, não duplicado, contra 138 em Mangaratiba, 125 em Itaguaí, 66 em Paraty e 51 no Rio.

A maioria é colisão traseira (166). Mas as colisões frontais (53 acidentes), mais comuns em pistas de mão dupla, foram as que deixaram mais mortos — 12 no total. Próximo a Angra, uma placa do Plano de Auxílio Mútuo da Costa Verde alerta, inclusive, para as estatísticas de acidentes.

No Bracuí, em Angra, até existe uma passarela ligando os dois lados do bairro. Mas é pouco usada. Difícil ver alguém atravessando por ela, enquanto pessoas cruzam a pista. O segurança Moacir Ferreira diz que o número de acidentes só diminuiu depois da instalação de quebra-molas:

— Antes, toda semana acontecia atropelamento.

Mas, se os quebra-molas foram uma solução para quem vive às margens da rodovia, a proliferação deles em várias áreas urbanas, além de dezenas de pardais de fiscalização eletrônica com diferentes velocidades, de até 40km/h, é motivo de reclamações de motoristas. O presidente da Associação de Turismo da Costa Verde, Dirceu Borin, chega a dizer que é um dos fatores que, hoje, mais prejudicam o turismo na região.

— Uma viagem do Rio a Paraty (que recebe a Flip a partir do dia 30) pode durar até mais de cinco horas — diz ele. — Com esses obstáculos e a má conservação, se houver um problema na usina nuclear de Angra, tenho certeza de que fica todo mundo preso aqui.

O Dnit informou que a duplicação da Rio-Santos está em fase de estudo de viabilidade técnica, econômica e ambiental, que precede os estudos ambientais e os projetos de engenharia para obras de infraestrutura de transportes de grande vulto. Não há prazo, portanto, para o início das intervenções.

Além do trecho de Itacuruçá a Angra, o estudo compreende outro em São Paulo. Superintendente do Dnit no Rio, Antonio Guanabarino diz que, por enquanto, estão em fase de licitação também serviços de conservação, restauração e manutenção de Angra até Itacuruçá. Segue em elaboração ainda uma licitação para obras de contenção de encostas em cerca de 70 segmentos da rodovia.

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