sábado, 19 de julho de 2014

Bairro imperial, São Cristóvão espera novos tempos de glória

10//11/2013 - O Globo

Bairro que já foi frequentado pela aristocracia e sofreu com a decadência e a favelização, hoje passa por revitalização

CÉLIA COSTA

Quinta da Boa Vista é vizinha de novos empreendimentos imobiliários Domingos Peixoto / Agência O Globo

RIO — Dos tempos de pompa, quando era frequentado por nobres durante o Império, pouco restou. São Cristóvão se viu transformado num polo industrial e, depois, sofreu com a decadência e a favelização. Iniciou uma recuperação e passou a ser cobiçado por empreendedores imobiliários após a aprovação do Plano de Estruturação Urbana (PEU), em 2004. Agora, porém, enquanto seus vizinhos (Zona Portuária e Maracanã) passam por uma grande revitalização, São Cristóvão fica apenas com os ônus desse processo. Um deles é o engarrafamento diário: suas ruas foram transformadas em rotas alternativas com o fechamento do Elevado da Perimetral.
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Com localização privilegiada, o bairro fica próximo ao Centro, tem boa infraestrutura de transportes (trem, metrô e ônibus) e abriga a maior área urbana de lazer da cidade, a Quinta da Boa Vista. De São Cristóvão, chega-se rapidamente a Niterói, à Zona Sul e bairros importantes da Zona Norte, como a Tijuca. E, por ali, passa também a Linha Vermelha, o que facilita o acesso ao Aeroporto Internacional Tom Jobim, à Via Dutra e à Baixada Fluminense.
— É uma região aprazível. Se não tivéssemos mar, a Quinta seria o nosso Central Park. É uma área que seria supervalorizada em qualquer lugar do mundo — avalia Ruy Rezende, arquiteto responsável por projetos que estão ajudando a dar novo perfil à área do Porto.
Para Rezende, São Cristóvão é subutilizado e merece um amplo projeto de revitalização. Ele, no entanto, acredita que o bairro será beneficiado diretamente pelas transformações do seu entorno:
— O projeto do Porto Maravilha vai avançar para São Cristóvão. É uma expansão urbana natural.
Os moradores alimentam essa esperança. O presidente da Câmara Comunitária de São Cristóvão, Maurício Mendes, diz que o bairro está fazendo um sacrifício em prol da cidade.
— Pagamos o preço das melhorias, como a criação do Porto Maravilha e as obras do piscinão da Praça da Bandeira. Esperamos que, quando tudo estiver pronto, deem mais atenção ao bairro, que tem um patrimônio riquíssimo e precisa ser valorizado. A Quinta da Boa Vista, por exemplo, está abandonada — diz Mendes.
Os grandes empreendimentos imobiliários no bairro só se tornaram viáveis após a aprovação do PEU, que permitiu o aumento do gabarito de três para até 13 andares, dependendo do local. Empresas como a Concal Construtora e a Patrimóvel investiram na região. Rodrigo Conde Caldas, da Concal, afirma que muito já foi feito ao longo dos últimos anos, mas reconhece que o bairro ainda precisa de investimentos:
— Não é por ser um bairro histórico que São Cristóvão precisa ficar no passado. Ele necessita de revitalização viária e de incentivos na área cultural. O Palácio Imperial, por exemplo, poderia voltar a ser um museu. Outro ícone do bairro, a Quinta da Boa Vista, também precisa de investimentos.
Segundo a Subprefeitura do Centro, São Cristóvão receberá em breve o projeto Asfalto Liso. Além disso, será beneficiado pelos investimentos na vizinhança, como o programa Bairro Maravilha em Benfica e a dragagem do Canal do Cunha, que deverá melhorar o sistema de drenagem de São Cristóvão.
Residência da família real durante todo o Império, a Quinta da Boa Vista foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1938. A área de 560 mil metros quadrados foi ajardinada em 1869 pelo paisagista francês Auguste Glaziou. Hoje, é a grande área de lazer de moradores da Zona Norte. A casa da Marquesa de Santos, que abriga o Museu do Primeiro Reinado, é outro imóvel importante da época do Império. No lugar, a Secretaria estadual de Cultura desenvolve o projeto do Museu da Moda em parceria com o Instituto Zuzu Angel e a Fundação Getulio Vargas, com previsão de inauguração em 2016. A ideia é instalá-lo num prédio a ser construído num terreno contíguo ao da Casa da Marquesa de Santos. Enquanto o projeto é desenvolvido, o imóvel passa por uma restauração e estará aberto ao publico no fim de 2014.
A região abriga ainda uma importante instituição de ensino, o Colégio Pedro II, fundado em 1888. Até no futebol o bairro se orgulha do passado, ainda que recente. É lá que fica o São Cristóvão, clube que descobriu Ronaldo, o Fenômeno.
Indústrias fecharam as portas
São Cristóvão passou por uma transformação nos anos 40, com a abertura da Avenida Brasil. Foi quando a região se consolidou como o maior bairro industrial da América Latina. O parque industrial de São Cristóvão viveu sua maior crise na década de 70. Os enormes galpões sem utilização acabaram contribuindo para a ocupação desordenada e a favelização, o que espantou a classe média para longe do bairro. Foi depois disso que o Pavilhão de São Cristóvão, construído para ser palco de grandes eventos e exposições, fechou seus portões. Após um longo período de abandono, o lugar hoje abriga a Feira de Tradições Nordestinas, uma das atrações turísticas da cidade. Sinal de esperança para quem anseia por dias melhores para o bairro.
Endereço da família real
Conta a história da cidade que o nome do bairro tem como origem a Igreja de São Cristóvão, construída no século XVII por padres jesuítas.
Mas a pompa chegou à região quando D. João VI decidiu que o Paço da Quinta da Boa Vista seria sua residência oficial. Com isso, esse pedaço da cidade passou por uma grande valorização. As áreas que ainda eram pantanosas precisaram ser aterradas para abrigar as residências. O bairro ganhou iluminação e outras melhorias. E, assim, a s famílias nobres foram se fixando na região.
Amante de D. Pedro I, a Marquesa de Santos também tinha uma casa em São Cristóvão, que posteriormente foi transformada em museu.
Com a queda do Império, o complexo da Quinta da Boa Vista se transformou no Museu Nacional. E, com os novos tempos, o bairro perdeu prestígio.

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