quinta-feira, 3 de julho de 2014

Vilas de Árbitro e de Mídia dos Jogos Olímpicos permanecem sem endereço definido

COI ainda não respondeu se aceita transferir os cerca de 1.300 quartos da Zona Portuária para Jacarepaguá

POR LUIZ ERNESTO MAGALHÃES

02/07/2014 - O Globo

O Residencial Porto Vida, que seria usado como vilas de Árbitro e de Mídia: prefeitura depende de aprovação do COI para levar projeto para Jacarepaguá
Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo
O Residencial Porto Vida, que seria usado como vilas de Árbitro e de Mídia: prefeitura depende de aprovação do COI para levar projeto para Jacarepaguá - Márcia Foletto / Agência O Globo
RIO — A pouco mais de dois anos dos Jogos Olímpicos, uma indefinição ronda a organização do evento. Segundo a prefeitura, o Comitê Olímpico Internacional (COI) ainda não respondeu se aceita transferir da Zona Portuária para Jacarepaguá cerca de 1.300 quartos que deverão servir como vilas de Árbitro e de Mídia. O impasse aumenta porque voltar atrás na decisão seria complicado. Com base na afirmação do prefeito Eduardo Paes de que o terreno localizado na Rua General Luís Mendes de Souza (Santo Cristo) não tinha mais a chancela olímpica, o empreendimento Porto Vida Residencial teve as obras paralisadas em junho, e não há prazo para serem retomadas. Quanto ao plano B proposto pela prefeitura, por enquanto não passa de projetos nas pranchetas.

As vilas faziam parte do chamado Porto Olímpico. A decisão de excluir o Porto foi financeira, para reduzir em até R$ 70 milhões as despesas com a organização do evento, que serão arcadas pelo Comitê Rio 2016 — entidade privada que tem entre as atribuições a logística dos Jogos. Em maio de 2010, a prefeitura conseguiu a aprovação do COI para transferir para a Zona Portuária algumas instalações secundárias dos Jogos, com o objetivo de valorizar o projeto do Porto Maravilha, melhorando o legado do evento. Na época, o município também queria realizar algumas competições no Porto, mas o COI não aceitou. Por enquanto, o único projeto que está em andamento é a construção de um hotel no mesmo terreno do condomínio residencial paralisado. O empreendimento Holiday Inn Porto Maravilha, com 594 quartos e centro de convenções, começou a ser erguido este ano, e a previsão é que as obras terminem em dezembro de 2015.

ALTERNATIVAS COMPLICADAS

A alternativa para as vilas sugerida ao COI mantinha a estratégia inicial de oferecer serviços hoteleiros em novos empreendimentos residenciais que serviriam como moradia apenas após os Jogos Olímpicos. Os quartos seriam oferecidos em apartamentos de novos projetos do Minha Casa Minha Vida programados para Jacarepaguá. Nesse ponto é que surgem mais dificuldades. Hoje, existe apenas um projeto em andamento na região. Os apartamentos, localizados num terreno da Colônia Juliano Moreira, ficam prontos em setembro, e não há como mantê-los desocupados até 2016 sem comprometer outro projeto olímpico. Isso porque o condomínio está sendo erguido para abrigar moradores que precisam ser removidos pelas obras de construção do futuro BRT Transolímpico (Barra-Deodoro).

Existem outras duas áreas disponíveis em Jacarepaguá. O primeiro terreno, no Anil, e que tem a preferência da prefeitura, já foi uma fábrica de cerveja e refrigerantes. A hipótese de usar a área como hospedagem provisória chegou a ser levantada em reuniões de trabalho, há dois anos, com membros do COI no Rio. O segundo terreno fica próximo à Colônia Juliano Moreira. O início das obras, porém, ainda depende da assinatura de contrato com a Caixa Econômica Federal. A Secretaria municipal de Habitação disse que o início das obras depende da conclusão dos trâmites burocráticos. Um processo que, às vezes, pode demorar. O plano para construir casas populares na antiga fábrica tem cinco anos, por exemplo. Mas, teoricamente, há tempo: em média, um projeto do Minha Casa Minha Vida fica pronto em 15 meses.

O impasse criou dificuldades até mesmo para o Tribunal de Contas da União (TCU) fiscalizar o andamento dos projetos. Em relatório que orientou acórdão aprovado na semana passada em plenário, os técnicos observaram que não conseguiram obter junto à Autoridade Pública Olímpica (APO) informações sobre as mudanças no Porto. O Comitê Rio 2016 não quis se manifestar, alegando que a questão das vilas seria do município.

O prefeito Eduardo Paes, por sua vez, prefere não se pronunciar, pelo menos até a questão ser abordada em uma nova visita do COI ao Rio, provavelmente em agosto. Paes, porém, ainda tem ideias para sugerir ao comitê e tentar dar visibilidade ao Porto durante o evento. Uma das propostas seria instalar um dos live sites da cidade — espécie de versão olímpica das arenas do Fifa Fan Fest na Copa do Mundo — às margens da Baía de Guanabara. E ainda se procura um prédio histórico para abrigar o centro de imprensa da chamada mídia não credenciada — jornalistas que buscam outros focos para reportagens fora das arenas olímpicas.

SEM INTERESSE DE FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS

Em 2010, porém, a situação era diferente. Após se reunir com associações de moradores e entidades ligadas a urbanismo e arquitetura, Paes prometeu empenho para levar as Olimpíadas para a Zona Portuária. Chegou a contratar o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) para desenvolver um concurso internacional de projetos. Além disso, a prefeitura firmou um convênio para que funcionários públicos comprassem apartamentos na região, financiados com cartas de crédito do Previ-Rio (fundo de previdência do município). Mas, segundo fontes da prefeitura, apenas cerca de 300 candidatos teriam feito a pré-inscrição no Previ-Rio.

O presidente do IAB-RJ, Pedro da Luz, lamentou a desistência da prefeitura. Para ele, associar um empreendimento residencial no Porto Maravilha às Olimpíadas seria estratégico para a ocupação da área. Ele lembrou que a reduzida oferta de moradias pode repetir o que ocorrenas ruas do Centro: grande movimento durante a semana de trabalhadores e ruas desertas no fim de semana:

— A antecipação de um empreendimento residencial serviria de estímulo para outros investidores. Construir a vila em Jacarepaguá em nada vai fortalecer a vocação residencial da área.

O Porto Vida Residencial é desenvolvido pelas construtoras Odebrecht, OAS e Carioca Engenharia. Em nota, a assessoria das construtoras informou que 20% do projeto já haviam sido executados quando as obras foram paralisadas. Agora, o cronograma está sendo adequado para um projeto imobiliário convencional.

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