terça-feira, 7 de abril de 2015

Na Zona Portuária, paisagem resgatada com a demolição da Perimetral já atrai turistas

07/04/2015 - O Globo

RIO — Novos horizontes, novos visitantes. A reboque das profundas plásticas da orla do Centro, turistas que debutam na Cidade Maravilhosa apontam suas bússolas para uma pedaço de terra negligenciado há décadas. Até cariocas passaram a estabelecer uma ligação mais íntima com uma Praça Mauá já livre do enorme bloco de concreto e ferro que impedia a vista do mar. A saída da Perimetral renovou os ares também na Praça Quinze. No sábado pré-Páscoa, a sul-coreana Ji Hyeon Kim, de 19 anos, visitava barraquinhas da feira de antiguidades nas proximidades da estação das barcas:

— Na Coreia, o Rio tem o estereótipo de ser uma cidade muito violenta. Eu cheguei há pouco tempo e tenho observado que não é bem assim. As ruas são largas, espaçosas. E os cenários, muito bonitos.

O carioca aposentado Carlos Eduardo Palmer foi ver de perto a transformação nos arredores do Museu do Amanhã. Ao lado do monumento ao Barão de Mauá, ele tentava traçar, com as mãos, uma linha imaginária por onde passava o elevado. Em vez de penumbra, a praça estava iluminada — até demais. O aposentado buscou guarida num trecho de sombra, com a amiga Regina Raso.

— Eu sempre fui favorável à demolição desse monstrengo. De fato, pude ver que ficou bem melhor — diz ele, que volta ao Rio depois de uma temporada de dez anos em Nova Friburgo. — Só achei que um trecho maior da orla já estivesse liberado à visitação. Infelizmente, ainda não conseguimos acesso a alguns locais.

Regina, que sempre teve um pé atrás com a derrubada da Perimetral, reconhecia que o aspecto mudou para melhor:

— Sempre fui contra (a demolição), porque toda transformação gera custos. Gasta-se muito dinheiro para construir e outros milhões para desconstruir. Acaba ficando uma coisa ao gosto do prefeito em exercício. Mas realmente ficou melhor, isso é inegável. Se um dia eu conseguir saber onde estão as vigas da Perimetral que desapareceram, gostarei ainda mais.

Nem a falta de policiamento e de informações turísticas tirava o ânimo da estoniana Evelin Tomsom, de 40 anos. Funcionária de uma ONG de Direitos Humanos, a moradora de Londres desembarcou no Museu Naval em busca de novidades. Queria conhecer um pouco mais a história das invasões do Rio por corsários.

— Na verdade, eu cheguei aqui por acaso: desci no ônibus e acompanhei o fluxo de pessoas — divertia-se. — Disseram-me para ter cuidado, mas estou achando tudo incrível. Fui à Lapa sozinha e não tive qualquer problema. O povo é simpático e está sempre disposto a ajudar.

Apesar das declarações empolgadas, durante a apuração dessa reportagem, a equipe do GLOBO não registrou policiamento nas imediações da Zona Portuária, com exceção de uma patrulha a cerca de cem metros da Praça Mauá. A PM não informou o número de policiais destacados para patrulhar a região.

O diretor do Rio Convention & Visitors Bureau, Cláudio Magnavita, acredita que em menos de dois anos o tempo de permanência dos turistas estrangeiros e os gastos na cidade devem subir 25%. Para 2016, ele prevê que a Zona Portuária atrairá o dobro dos visitantes.

— A região passa por grandes transformações. O Museu de Arte do Rio (MAR) vem batendo recordes de visitação e seu restaurante é referência. E o Museu do Amanhã (espaço dedicado às ciências) já faz parte da silhueta da cidade — analisa Magnavita. — Uma das formas de aumentar a receita com o turista é criar um cinturão de atrações para aumentar a permanência dos visitantes na cidade.

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