sábado, 29 de maio de 2010

Em cinzas pela segunda vez


Famílias novamente perdem tudo em incêndio três anos depois de fogo ter destruído casas sob viaduto no Sampaio. Moradores vão receber aluguel social e Prefeitura do Rio vai começar a mapear as favelas sob estruturas viárias

POR PAULA SARAPU - O Dia - 29/05/2010
Rio - A doméstica Rosângela Augusto, 42 anos, deixou Minas Gerais para tentar vida melhor no Rio. Instalada na Favela Dois de Maio, sob o viaduto de acesso ao Túnel Noel Rosa, no Sampaio, ela viu tudo o que conquistou virar cinzas em incêndio que atingiu diversas casas há três anos. Ontem, Rosângela acordou com o mesmo pesadelo: cerca de 25 barracos foram destruídos pelo fogo. Ninguém se feriu, mas muitos ficaram apenas com a roupa do corpo. A estrutura de dois pilares do elevado acabou comprometida, e o trânsito no viaduto continua interditado. A prefeitura vai começar a mapear as comunidades sob viadutos.
Foto: Carlos Eduardo Rodrigues
 / Agência O Dia
Barracos em chamas sob o viaduto no bairro de Sampaio | Foto: Carlos Eduardo Rodrigues / Agência O Dia
Segundo os moradores, o Município prometera remover a comunidade no incêndio de 2007. Com três laudos de interdição destruídos ontem, Rosângela estava indignada. “Você só tem tempo de salvar a sua vida, o resto fica. Passei por três recadastramentos e nada aconteceu. Perdi tudo daquela vez, morei na rua à espera da remoção e, como não tinha para onde ir, construí outro barraco de madeira. Até quando vai ser esse descaso?”, questionou a doméstica, que salvou a mãe e os dois cachorros.

>>FOTOGALERIA: Incêndio sob viaduto no bairro Sampaio

Sob o viaduto, vivem 250 famílias, segundo o subprefeito da Zona Norte, André Santos. De acordo com ele, a comunidade já estava na lista das favelas que serão removidas este ano. “A Dois de Maio seria a sétima, porque não havia risco iminente. Ela podia esperar mais um pouco”, afirmou.

As famílias ficarão abrigadas na Vila Olímpica do Sampaio e receberão aluguel social de R$ 400 por tempo indeterminado — com adiantamento de três meses. Todos serão incluídos no programa ‘Minha Casa, Minha Vida’, e a área sob o viaduto será ocupada pela Comlurb. “Estamos reassentando desde o ano passado. Esse problema não se resolve do dia para a noite”, afirmou o prefeito Eduardo Paes.

Karina Mariano, 11 anos, segurava o único bem que lhe sobrou: a mochila de princesa. Ela tinha ido para a escola pouco antes. “Minha mãe está trabalhando e vai ficar muito triste”, disse a menina.

Viaduto atingido deve ser liberado hoje com restrições

Por causa do incêndio, a Rua Ana Néri e o viaduto que liga Vila Isabel ao Jacaré, foram interditados. O elevado e a alça de acesso pela Rua 24 de Maio permanecerão fechados porque, segundo a Defesa Civil, dois pilares foram afetados. O túnel está liberado pelas agulhas de acesso e saída da Rua Marechal Rondon. Por dia, cerca de 30 mil veículos passam pela área.

A Defesa Civil informou não haver risco de desabamento, mas é necessário escorar os pilares atingidos e recompor o reboco de cimento, o que vai demorar uma semana. O viaduto deve ser liberado hoje apenas para veículos leves, com sinalização para reduzir a velocidade.

Comunidade tem até amanhã para deixar as casas

As 53 famílias vizinhas do pedreiro Marcelo Pereira, que morreu quinta-feira no desabamento de sua casa, no entorno da Colônia Júlio Moreira, em Curicica, têm até amanhã para deixar seus imóveis. Ontem, os moradores começaram a retirar seus pertences. 

“Todo mundo está ocupado retirando as coisas, não queremos correr o risco de nossa casa desabar. Ainda não tenho para onde ir, vou ficar na casa de vizinhos, mas bola para frente” disse a moradora Tatiana Silva e Souza, 29, moradora de uma das 46 casas que já receberam o aluguel social de R$400 da prefeitura.

Sobrevivente da tragédia, Micke Pereira, 6 anos, continua internado na UTI do Hospital Lourenço Jorge. Os corpos de Marcelo, 38 anos; a mulher, Silvana da Silva, 28; o filho caçula do casal, Nicolas Pereira, 5, e o primo José Gonçalves, 33, foram enterrados ontem no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju.

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