domingo, 2 de maio de 2010

Onde o luxo é vizinho das páginas policiais

02.05.10 às 01h10 - O Dia


Condomínio Golden Green, na Barra da Tijuca, é palco de suntuosidades e prisões

Rio - A tradução ao pé da letra de Golden Green é Verde Dourado, mas quem conhece o condomínio de luxo que leva esse nome na Avenida Sernambetiba, na Barra da Tijuca, sabe que o significado poderia ser dólar e ouro. Com 512 apartamentos que podem custar mais de R$ 10 milhões (cada um), o lugar é famoso por alguns de seus ilustres moradores, presentes tanto em colunas sociais quanto em noticiários policiais. Em 12 anos, pelo menos 10 tiveram problemas com a polícia e chegaram a ser presos. Fraudadores da Previdência e da Saúde já foram detidos e milionários célebres, despejados. Por dívida, seus imóveis acabaram leiloados.


O mais recente episódio foi protagonizado pelo proprietário de mega-apartamento de R$ 2 milhões. No último dia 15, o empresário Jorge Figueiredo foi preso no condomínio, acusado de participação no esquema de desvio de verba no Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier. Segundo a Delegacia de Crimes Contra a Saúde Pública, ele faz parte de quadrilha de médicos e empresários que forjava documentos para justificar a compra de materiais e cirurgias fantasmas. A empresa de Jorge, a Extencion, recebeu, desde 2007, mais de R$ 6 milhões só da Prefeitura do Rio.
O MAIS LUXUOSO FOI APELIDADO DE BANGU 4
A ligação com o noticiário policial fez até o edifício mais luxuoso dos 14 prédios ser apelidado por alguns moradores de Bangu 4 — em referência ao complexo penitenciário. Os banqueiros Daniel Dantas e Salvatore Cacciola — que já foram presos — moravam respectivamente no primeiro e no segundo andar. Dantas responde em liberdade a processo por lavagem de dinheiro. Cacciola foi condenado por crime contra o sistema financeiro e reside, desde 2007, em Bangu 8. No passado, quando ainda viviam no Golden Green, os vizinhos tinham muito em comum: apartamentos com cerca de 800 m² cada, sendo 120 m² só de varanda, quatro suítes e seis vagas de garagem.
Há casos outros casos que dão o que falar. No prédio de Cacciola e Dantas, segundo moradores, barraco familiar envolvendo um grande empresário terminou na compra de uma cobertura igual no edifício ao lado: foi a exigência da ex-mulher para aceitar a separação.
Ficou famosa também a disputa entre a moradora Sandra Bulhosa Fernandes com sua empregada doméstica, Rogenas da Silva, por um Mercedes-Benz Classe A, em 2000. O carro foi sorteado pelo supermercado onde Rogenas fez compras para a família de Sandra, que na época tinha quatro veículos. A Justiça deu ganho de causa a Rogenas.
Apesar da proximidade, quem mora no Golden Green consegue manter a privacidade. Os edifícios são planejados para que não seja possível observar a vida alheia. Mas, enquanto uns buscam discrição, outros querem o convívio social. Para celebrar sua chegada ao condomínio mais exclusivo da cidade, um morador promoveu festança para todos os vizinhos, que receberam uma orquídea como convite.

A extravagância também é coletiva. De frente para a orla da Barra, com seus 18 km de extensão, os moradores têm ainda 2,5 km de ciclovia particular, margeando amplo campo de golfe. Para se deslocar pelo Golden Green — que tem salão de beleza, restaurante, quadras de tênis, futebol e squash —, é possível usar carrinho de golfe. Cada bloco tem sua própria piscina, academia, jacuzzi e sauna. Conforto que tem o seu preço. “Volta e meia acordo e vejo movimentação de policiais federais e jornalistas. Aí já sei que algum vizinho está com problemas”, contou um morador.
Mas nem só de polícia — em busca de moradores encrencados — é feita a segurança do condomínio. Além das cabines espalhadas pelo interior, há vigilantes armados e câmeras por toda parte. Os moradores, como uma famosa atriz da novela das oito e prefeitos de municípios da Baixada, dispõem até de um sistema antissequestro.
Pagamento à vista por heliporto e bicas de ouro
Os apartamentos variam entre 300m² e 950 m² e podem ter de três a nove vagas de garagem. O heliporto é item que atrai empresários e políticos. Alguns são vistos pousando às sextas-feiras para passar o fim de semana. Segundo um corretor, 90% dos apartamentos têm ar central e bicas banhadas a ouro. 

Para desfrutar de tudo isso, é necessário desembolsar até R$ 10 mil mensais de condomínio. Segundo o vice-presidente da Secovi-RJ (Sindicato da Habitação), Leonardo Schnider, que administra dois dos prédios, viver lá é status. “O Golden Green é grife. Quem quer morar lá paga mais que o valor de mercado”, explica, acrescentando que dinheiro não é problema para os moradores do condomínio: “A maioria paga à vista”.

Nenhum comentário: