domingo, 6 de junho de 2010

Arquitetos transformam prédios e terrenos públicos abandonados em moradias no Centro

REVITALIZAÇÃO


Publicada em 05/06/2010 às 22h01m
O Globo - 05/06/2010
    Projeto na Gamboa com 142 unidades habitacionais do grupo. Divulgação : Chiq da Silva
    RIO - Depois de viver 12 anos sob o estigma de invasores, os ocupantes do prédio da Uerj na Rua Mem de Sá estão próximos de declararem, sem medo, que são moradores do endereço. A ocupação, conhecida como Almor (Ação Livre por Moradia), foi incluída no Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social (Snhis), primeiro passo para a tão esperada regularização. De arquitetura art déco e com três pavimentos, o edifício, da década de 20, ganhará um projeto para que as 34 famílias que hoje habitam o imóvel tenham melhores condições de moradia. Por trás das mudanças, está um grupo de cinco jovens arquitetos e amigos, formados na UFRJ, que fundou a associação Chiq da Silva.
    Estado tem 180 imóveis ociosos no Centro
    O grupo, há quatro anos, abraçou a causa dos que defendem o enquadramento de propriedades ociosas do Estado e da União no Centro em programas habitacionais. No ano passado, o Chiq da Silva assinou com os governos estadual e federal os contratos para mais três projetos, além do Almor. Todos estão em andamento, sempre em parceria com os moradores, que, periodicamente, se reúnem em assembleia para discutir os detalhes.
    Assembleia decide tamanho de apartamentos
    No edifício da Uerj, as famílias, que vivem em espaços divididos de forma improvisada, decidiram em conjunto que o tamanho dos apartamentos irá variar de acordo com o número de habitantes de cada unidade. Os apartamentos passarão a ter entradas independentes e ventilação adequada.
    - O prédio precisa de uma reforma urgente. Os banheiros são coletivos e não há cozinhas nos apartamentos - conta Carmem Rezende, de 50 anos, que trabalha como acompanhante e chegou ao edifício há dez anos.
    Carlos João, de 55 anos, e há 12 no endereço, sonha com um quarto para a filha.
    - Eu tenho uma filha adolescente e queria fazer um quarto e um banheiro para ela - revela o morador, que trabalha na Lapa, a algumas quadras do edifício. - A localização é muito boa. Não quero sair daqui. Antes, morava no Bairro de Fátima pagando aluguel. Não me importo se tiver que pagar imposto para continuar.
    A reforma é considerada tão prioritária quanto a regularização fundiária, mesmo que isso signifique o pagamento de taxas e impostos, como o IPTU. A renda dos moradores varia entre zero e três salários mínimos. Segundo a arquiteta Carol Rezende, de 28 anos, coordenadora do projeto do Almor, quando o processo for concluído, as famílias terão a concessão de direito real de uso, que vai impedir a venda do imóvel.
    - Não queremos tomar o prédio. Queremos moradia - diz a vendedora Leila Maria, 34 anos, no prédio desde 1998.
    Moradias também ajudam a revitalizar o Centro
    A política defendida pelo Chiq da Silva é considerada uma saída de baixo custo e de grande alcance social ao déficit habitacional no Rio, que hoje chega a 379 mil moradias na região metropolitana, segundo o Ministério das Cidades. As grandes vantagens apontadas pelos arquitetos são a infraestrutura, como transporte e saneamento, e o mercado de trabalho já existentes no Centro. A inclusão desses espaços em programas habitacionais também ajuda a revitalizar a região.
    - A escada art déco é o xodó dos moradores. Mas o grande destaque do Almor é a centralidade - afirma a arquiteta Thaís Meireles, de 31 anos.
    Ela lembra que o grupo de amigos passou a trabalhar com arquitetura para habitação popular em 2006, quando foi procurado pelos moradores do Chiquinha Gonzaga, ocupação no prédio do Incra na Rua Barão de São Félix. Na época, as maior parte do grupo ainda estava na faculdade. O projeto para o prédio foi elaborado de forma voluntária, e por meio dele, a ocupação conseguiu entrar no Snhis. A licitação para as obras, que beneficiarão 70 famílias, deve ocorrer após as eleições, em outubro.
    - Será mais ou menos R$ 1,8 milhão para a obra, o que é pouco, mas já dá para transformar o edifício em habitação. Dá para refazer a infraestrutura elétrica, de água e esgoto. Nossos projetos também criam melhorias para os moradores e o bairro. O prédio do Incra foi construído para ser um hotel e, por isso, tem áreas comuns, onde ficarão as salas de aula e os espaços de inclusão digital e para projetos de geração de renda. Será um condomínio aberto ao público - adianta Thaís.
    O Chiq da Silva trabalha ainda em dois projetos contemplados com recursos do Fundo Nacional de Habitação por Interesse Social (Fnhis): o da ocupação Zumbi dos Palmares, no prédio do INSS da Avenida Venezuela, e o projeto Gamboa, que prevê a construção de 142 unidades habitacionais em terrenos da União. Também fazem parte do grupo os arquitetos Daniel Wagner, Gilberto Rocha e Luciana Andrade.

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