sexta-feira, 11 de junho de 2010

Em vez de 'bichoduto', Arco pode ganhar dois viadutos para proteger pererecas

NO MEIO DO CAMINHO


Publicada em 25/05/2010 às 23h44m
Taís Mendes - O Globo - 25/05/2010
    Uma das áreas da Floresta Nacional que estão em obras: local onde vive a espécie rara / Foto de aquivo de Marcelo Carnaval - O Globo
    RIO - Após nove meses de paralisação parcial por causa da descoberta de uma perereca rara no meio do caminho, as obras do Arco Rodoviário poderão ser retomadas em breve. O governo do estado enviou ao Ministério do Meio Ambiente duas soluções para a preservação da Physalaemus soaresi: a implantação de uma espécie de "bichoduto", um túnel que permite a circulação dos animais; ou dois viadutos sobre a área onde vivem os animais ameaçados de extinção. Os viadutos seriam batizados de Dercy Gonçalves, que fez sucesso com a música "Perereca da vizinha", como noticiou nesta terça-feira Ancelmo Gois em sua coluna no GLOBO, mas a decisão não é oficial.
    - Os viadutos do Arco não têm nomes. A indicação do nome da Dercy é mais uma piada em torno da perereca, mas que não tira a gravidade da questão. Infelizmente, não dará para homenagear a Dercy. Não é essa a missão do Arco - disse o subsecretário de Urbanismo, Vicente Loureiro, responsável pela obra no trecho a cargo do estado.
    O trecho em questão fica entre a Via Dutra e o Porto de Itaguaí e corta a Floresta Nacional Mário Xavier, uma unidade de preservação. Segundo Loureiro, assim que uma das soluções forem aprovadas, a mudança será submetida ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). Com o sinal verde do Instituto Chico Mendes, o subsecretário acredita que o trecho fique pronto até o fim do ano:
    - O presidente do instituto já recebeu as propostas e prometeu examinar o mais rapidamente possível. A demora é necessária pois uma espécie está em jogo.
    (Ouça o canto nupcial da perereca)
    Analista ambiental do Instituto Chico Mendes, Rogério Rocco diz que a ideia dos viadutos com um "bichoduto" foi aceita pelos técnicos do instituto. Ele disse que falta apenas o governo apresentar um projeto detalhado das mudanças.
    - A ideia do "bichoduto" existe antes da sugestão de erguer ali um viaduto porque a unidade de conservação já foi cortada pela rodovia. A solução seria a estrada passar fora da flora para não produzir impacto no local. A sugestão dos viadutos minimiza, mas não elimina o impacto. O governo, no entanto, se comprometeu a fazer cercas vivas para reduzir o ruído e a carga de fumaça emitida pelos carros. O ideal seria não passar pela unidade de conservação. Porém, a proposta dos viadutos melhora o cenário.
    'Physalaemus soaresi' só existe ali
    Iniciada em 2008, a estrada de 145km que ligará Itaboraí ao Porto de Itaguaí, cortando rodovias e cinco municípios, foi orçada em quase R$ 1 bilhão (recursos da União, do governo estadual e de uma concessionária privada) e estava prevista para terminar este ano. O projeto pretende facilitar o acesso de cargas de toda a malha rodoviária do país a Itaguaí. A obra parou em setembro no trecho, devido à descoberta da perereca, de apenas 2cm, por pesquisadores da UFRJ e de 28 sítios arqueológicos. Desde a sua identificação naquela área, em 1965, a Physalaemus soaresi jamais foi localizada em outro lugar do planeta.

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