domingo, 26 de setembro de 2010

Dops: cem anos de um símbolo da história política

MEMÓRIA


Publicada em 25/09/2010 às 19h21m
Ludmilla de Lima - O Globo - 25/09/2010
Prédio da Polícia Civil, onde durante o regime militar funcionou o Dops, faz 100 anos em 2010. Foto: Márcia Foletto
RIO - O prédio do antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), na Rua da Relação, no Centro, completa cem anos em novembro com o mesmo clima sombrio que marcou a sua história. Palco da repressão política no século passado, e, por outro lado, considerado uma jóia do estilo eclético de inspiração francesa, o edifício teve suas portas fechadas em março por causa dos impactos provocados pela construção, nas redondezas, de um complexo da Petrobras, sob a responsabilidade da construtora WTorre. Até então, desde 1999, funcionava no espaço, tombado pelo Inepac, o Museu da Polícia Civil.
Conheça o interior do edifício centenário
Quem entra hoje no imóvel encontra poeira, afrescos cobertos de tinta, vitrais alemães quebrados e mobiliário de época encaixotado. O cenário contrasta com o valor artístico e histórico do edifício, projetado pelo arquiteto Heitor de Melo (responsável também pelo edifício da Câmara de Vereadores, na Cinelândia) e destino de presos políticos brasileiros.
"Esse é o prédio mais importante da história política brasileira. Quase todos que se opuseram aos governos desde o início do século passado estiveram ali. É um prédio que simboliza a memória política do país" diz Jessie Jane, professora de História da UFRJ, ex-diretora do Arquivo Público do Rio de Janeiro e ex-guerrilheira.
Ela defende, junto com o Grupo Tortura Nunca Mais, a transformação do prédio em um centro de memória da história política brasileira. Pelas suas celas passaram nomes como Olga Benário, Luís Carlos Prestes, Mário Lago e militantes de esquerda nas décadas de 60 e 70. Muitos foram vítimas de tortura.
Presidente do Grupo Tortura Nunca Mais, a professora de Psicologia da UFF Cecília Coimbra ficou três dias em 1970 sendo interrogada na carceragem localizada no térreo. O Departamento de Polícia Política e Social (DPPS), que sucedeu o Dops, acabou extinto no Rio em 1983.
"O Dops existe desde os anos 20, muito em função dos anarquistas. Durante o Estado Novo, Filinto Müller (chefe de polícia nomeado por Getúlio Vargas) praticou torturas no Dops. Na ditadura militar, em 69, surge o Doi-Codi e começa a fase de terrorismo de estado. Mas o Dops continua atuando, fazendo papel secundário."

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