sábado, 10 de novembro de 2012

Píer em Y foi planejado sem consulta ao patrimônio

10/11/2012 - O Globo

Urbanistas criticam falta de debate e dizem que interesse de Docas se sobrepôs aos da cidade

Paredão. A montagem mostra como ficaria o futuro Museu do Amanhã diante de um transatlântico atracado. O píer em Y terá capacidade para 6 navios Reprodução

RIO O polêmico projeto do píer em Y que a Companhia Docas pretende construir perto do Armazém 2, próximo à Praça Mauá, numa área que será revitalizada com a derrubada da Perimetral e a inauguração de dois museus, não desagrada apenas a arquitetos e urbanistas, que criticam a falta de debate sobre a localização do atracadouro e também os danos que ele trará à paisagem. Órgãos de proteção do patrimônio também reclamam que não foram consultados.

Segundo Washington Fajardo, presidente do Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural, os armazéns do Porto, do 1 ao 7, são tombados. Qualquer alteração neles, ou no seu entorno, tem que passar por análise e aprovação do órgão.

Esse píer não passou pelo conselho, que, com certeza, daria parecer contrário. Esse projeto é extremamente prejudicial à cidade e vai na contramão do planejamento estratégico que a prefeitura vem pensando para a região, com a transformação da Praça Mauá e a abertura de dois museus de magnitude internacional.

Iphan cobra explicação

O Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan-Rio) também não foi informado sobre a construção. O órgão enviará na segunda-feira ofício cobrando explicações das Docas e poderá embargar a obra se ficar comprovado que o píer e o paredão de navios que ele provocará interferem na visão do Mosteiro de São Bento, um bem tombado pela União. Por conta desta restrição, o Museu do Amanhã não pôde ultrapassar 15 metros de altura. Navios têm cerca de 60 metros, podendo chegar a 70.

Diretor-executivo do Museu de Arte do Rio (MAR), que, junto do Museu do Amanhã, ajudará na revitalização da Praça Mauá, Luiz Fernando de Almeida diz que o píer em Y desqualifica as intervenções que estão sendo feitas na área:

Não dá para pensar a Praça Mauá com um equipamento cultural separado do outro. O píer não dialoga com eles.

Luiz Fernando diz já ter visto vários documentos sobre a revitalização do porto e garante que nenhum deles tinha desenhos do Y colado ao Museu do Amanhã (a distância será de 500 metros):

Eu só conhecia outras versões do projeto, com um impacto menor, com navios paralelos ao porto.

Presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio, Sydnei Menezes chamou atenção para a falta de transparência do projeto, que não foi devidamente discutido com a sociedade, e classificou o píer como absurdo:

Não pode um estudo técnico da Companhia Docas se sobrepor ao interesse da cidade. Esse projeto tem que ser revisto, discutido. O que adianta a prefeitura derrubar a Perimetral se teremos uma Perimetral flutuante?

O presidente da Companhia Docas disse ao GLOBO que a proposta inicial de construir o píer perto do Armazém 6 foi descartada porque seria mais cara. Um dos canais de navegação do porto teria que ser deslocado e esbarraria em ilhas, fazendo com que fosse necessário o uso de explosivos. Com o píer no Armazém 2, o canal terá que ser deslocado, mas numa distância menor.

Abandonamos logo a primeira ideia porque vimos que ela seria mais complicada e cara. Não chegamos nem a orçar o primeiro projeto. A ideia do píer em Y está licitada desde 2010 disse Mello na última quinta-feira.

Presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea-RJ), Agostinho Guerreiro contesta as alegações de Docas:

Investir na mudança de canal de navegação é caro sempre. Se vai gastar mais, ou menos, não interessa. O que precisa é achar a melhor solução. E esta certamente não é. É um monstrengo urbano.

A Companhia Docas afirmou na sexta-feira que, apesar da polêmica, não realizar a obra não faz parte dos planos da companhia. A opção é única, ou faz do jeito que está concretizado, ou não faz. A empresa informou ainda que realizou em 2011 audiência pública para discutir o projeto. A obra deve começar no início de 2013.

Prefeito diz que não é o ideal

Na sextafeira, o prefeito Eduardo Paes admitiu que a solução para o píer não é a ideal, mas disse que questionamentos agora significariam mais atrasos. Os navios servirão de hospedagem durante a Copa e as Olimpíadas. Presidente da Autoridade Pública Olímpica, Márcio Fortes alegou que a escolha do local foi discutida pelo governo federal, municipal e Docas:

A prefeitura queria entre os armazéns 2 e 3, mas isso atrapalharia a operação portuária de cargas.



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