sábado, 3 de novembro de 2012

Um legado para o Rio

26/10/2012 - O Globo, Especial Rio 2016

Projeto de Londres, em região degradada, inspira o modelo a ser adotado no evento carioca

Que semelhanças podem existir entre o projeto de um parque olímpico concebido como âncora para revitalizar uma área degrada de Londres e a versão carioca que será construída numa área de classe média do Rio? Muito mais do que se imagina. A experiência acumulada no desenvolvimento do plano arquitetônico de Londres ajudou a empresa Aecom a vencer, em parceria com o arquiteto carioca Daniel Gusmão, o concurso de projetos organizado pelos brasileiros para conceber o projeto do Parque Olímpico carioca numa área de mais de um milhão de metros quadrados do Autódromo Nelson Piquet, que está sendo desativado.

Nos dois casos, o objetivo era o mesmo: desenvolver um projeto que garanta um legado sustentável após a realização das Olimpíadas. Em j Londres, parte do espaço de 400 mil metros quadrados vai virar o Parque Rainha Elizabeth, previsto para ser aberto em julho de 2013. Ao seu redor haverá investimentos privados, como a construção de oito mil apartamentos. O prédio do Centro de TV, por exemplo, será convertido num centro de pesquisa tecnológica. No Rio, o projeto da Aecom também prevê o legado pós-Jogos: um parque público e áreas para a construção de prédios, escritórios e hotéis.

TELÕES QUASE DENTRO DA LAGOA

Além de acompanhar a implantação do Parque Olímpico desde 2003, a empresa ainda presta consultoria para o desenvolvimento do legado.

- Em Londres, o contexto que envolvia o parque era muito diferente. No Rio, o objetivo é criar um legado esportivo, com a construção do Centro Olímpico de Treinamento para o Comitê Olímpico, e também um legado para toda a população, com o aproveitamento simultâneo das oportunidades para atender às necessidades de crescimento da cidade - explicou o arquiteto Adam Williams, diretor de Planejamento, Desenvolvimento e Design da Aecom.

Adam identificou outras semelhanças e diferenças de projetos.

- Nos dois parques olímpicos, a interação com a água é extremamente importante. Em Londres, o Live Site (espaço com entrada franca onde o público podia acompanhar o evento em telões) estava localizado em ambas as margens de um rio. Por isso, o foco central era o palco armado com telões no meio da água. Isso foi extremamente bem-sucedido. No Rio, teremos uma solução similar, em que o Live Site ficará na ponta do parque, praticamente dentro da lagoa - disse o diretor da Aecom.

Quando o assunto são obras, existem particularidades. Os canteiros são diferentes até porque em Londres foi necessário ter uma área para o estádio olímpico. O Parque Olímpico do Rio, que fica pronto em 2015, não terá estádio, porque será usado o João Havelange, o Engenhão. No Rio, toda a infraestrutura do antigo autódromo começou a ser demolida em julho. Os britânicos tiveram que demolir e eventualmente indenizar proprietários de 106 prédios residenciais e comerciais em Stratford. O último imóvel - um prédio que servia de alojamento para universitários - só foi derrubado em 2009, cerca de um ano após o início das obras do Parque Olímpico.

Londres concentrou muito público em seu parque olímpico. Isso criou desafios como conciliar o evento esportivo com um dos maiores centros comerciais da Europa: o Stratford Shopping, planejado antes dos Jogos de 2012.

- O shopping realmente foi útil aos espectadores que podiam ir às compras após as competições. Mas isso também criou desafios, porque o espaço precisou ficar acessível ao público em geral e não apenas aos espectadores durante os Jogos. Isso criou pressão sobre o sistema de transportes. Temos a expectativa que no Rio o público vai buscar outras áreas pela cidade após os jogos - disse Adam.

Apesar das diferenças, Daniel Gusmão destaca que o aprendizado com a experiência de Londres é constante. O escritório acompanha o desenvolvimento do projeto, contratado pelo Consórcio Rio Mais, que fez uma parceria público-privada com a prefeitura para urbanizar a área.

- Londres permitiu que tivéssemos um sólido entendimento de como o parque olímpico deve funcionar. Quais são as necessidades de atletas e membros de delegações para acessar as instalações esportivas de maneira eficiente. Ajudou também a planejar no Rio quais seriam as áreas destinadas ao público. O número de espectadores pode ser enorme, mas é possível usar a topografia e a vegetação para criar a sensação de um parque exuberante e acolhedor - detalhou Daniel Gusmão.

PROTEÇÃO DO MEIO AMBIENTE

Adam explicou que representantes da Aecom participaram do programa de observadores do evento.

- A experiência foi ótima, porque permitiu que nossa equipe pudesse verificar em primeira mão que ideias realmente funcionaram - disse.

O concurso vencido pela Aecom e por Daniel Gusmão foi organizado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB). Ao todo, foram inscritos 60 trabalhos de escritórios de 18 países.

Para o IAB, o projeto vencedor foi o que melhor atendeu às demandas, não apenas dos esportes como também em relação ao legado. Isso incluiu demarcar acessos distintos pa¬ra público, atletas e áreas de estacionamento de fácil acesso. No pós-Jogos, para o IAB, a concepção do projeto permitirá a proteção das lagoas da região. Os arquitetos fizeram uma projeção de como a área será ocupada até 2030. Ao todo, no Parque Olímpico serão disputadas 15 modalidades olímpicas, incluindo natação, tênis, basquete, judô e ciclismo. Durante os Jogos Paralímpicos, serão dez modalidades. A prefeitura ficou responsável por contratar as empresas que desenvolverão e farão o orçamento dos projetos das arenas provisórias e definitivas. As empresas serão contratadas ainda este ano, e as obras serão pagas com recursos do Ministério dos Esportes.


Marcelo Almirante
69 - 9985 7275

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