terça-feira, 25 de dezembro de 2012

A Barra é o futuro centro da cidade

21/12/2012 - O Globo, Carlos Fernando de Carvalho

A ilha de Manhattan, coração da cidade de Nova York, tem uma área de 87 quilômetros quadrados. O Centro do Rio somado à Zona Sul, menos da metade disso: 35km².
A planície da Barra da Tijuca - desde o túnel do Joá até a Grota Funda - mais do que tudo isso junto: 135km². E, além do túnel da Grota Funda, outra planície se estende até o limite sul do município - Campo Grande e Santa Cruz. Manhattan é muito bonita, mas está entre dois rios sem qualquer atrativo. A Barra se espreguiça diante dos 18 quilômetros da praia oceânica mais longa e mais linda do mundo.
O Comitê Olímpico Internacional, quando pela primeira vez visitou a Barra, no processo de escolha da sede para os Jogos de 2016, nem piscou: Rio na cabeça.
Não creio que haja ainda um grande número de cariocas convictos de que o Rio poderá continuar crescendo, espremido entre a Serra do Mar e a as águas da Guanabara. Em relação à Zona Sul, ninguém mais duvida de que o fim da favela da Praia do Pinto foi a última possibilidade de crescimento. Ou alguém ousaria pensar em aterrar a Lagoa Rodrigo de Freitas? Ou reeditar no Cantagalo os arrasamentos dos morros do Castelo e de Santo Antônio? Vamos falar sério. Lúcio Costa, o urbanista de maior sucesso no Brasil e um dos melhores do mundo, anteviu
claramente o futuro do Rio ao conhecer e percorrer a Barra.
Quem, como eu, acreditou nele (e continua acreditando) sem vacilações não tem qualquer motivo para arrependimento. E, ao ver aquela maravilhosa área praticamente virgem, Lúcio imediatamente traçou as primeiras linhas, não apenas para mais um belo e moderno bairro, mas para um novo rumo, para um novo Rio.
O urbanista grego Doxiadis, convidado, na década de 60, pelo então governador Carlos Lacerda, mesmo sem demorar aqui o tempo necessário para um planejamento mais detalhado, propôs o crescimento da cidade ao longo de dois eixos, um pelo norte e outro pelo sul, que convergiriam para a área de Santa Cruz.
Lúcio Costa, corretamente, observou que a proposta de Doxiadis afetava a unidade urbana, faltava naquelas duas linhas-mestras a definição do centro desse território. E concluiu que os eixos norte e sul do desenvolvimento se encontrariam na bela planície da Barra, novo centro de irradiação da expansão da cidade.
Lacerda, Negrão de Lima e Chagas Freitas - os três únicos governadores da Guanabara, cidade-Estado como Cingapura e Hong Kong - nunca tiveram dúvida sobre os caminhos do futuro. Como dizem de maneira simples vários urbanistas e arquitetos: "O Rio precisa rodar."
Estácio de Sá e Villegaignon preocuparam-se, no início do século 16, com a segurança de seus soldados e suas caravelas, abrigando-os na ampla baía dos possíveis perigos vindos do mar e da selva. Mas, no século 21 e com mais de seis milhões de habitantes, a planície oferece espaços amplos, mais qualidade de vida, melhores ambientes para trabalho e lazer.
E aí? Não podemos continuar a discutir para onde deve crescer o Rio, mas, sim, começar a planejar sem qualquer dúvida sobre isso. Somos hoje 600 mil moradores na Região Barra, nas Olimpíadas deveremos ser quase 700 mil.
E esses números determinam outros. A Avenida das Américas tem capacidade máxima, no horário-pico entre 6 e 8 horas da manhã, para a circulação de 104 mil pessoas - 81mil em veículos coletivos e 23.400 em veículos individuais.
Mas, já em 2010, a demanda real foi de 125.985 passageiros e, em 2020, será superior a 150 mil! Curvas semelhantes são estimadas para as avenidas Ayrton Senna, Abelardo Bueno e Lúcio Costa - todas já saturadas ou próximas da saturação. Só a Salvador Allende promete números satisfatórios até 2020.
A Transoeste, Transcarioca e Transolímpica aliadas ao Metrô darão melhores possibilidades para os deslocamentos de entrada ou saída da região, mas sua entrada em operação aumentará o número de veículos de passagem ou cujo destino final seja a própria Barra.
Já se percebe hoje que o problema da mobilidade interna na Barra é e será cada vez mais o número um da região, embora já esteja sendo enfrentado com sucesso pela maioria das grandes cidades. Mesmo com atraso, se enfrentado com determinação, criatividade e visão moderna, este desafio pode encontrar soluções surpreendentes, que garantam a rápida e total acessibilidade ao tecido urbano local.
Arrisco-me a prever que, se realmente houver um bom diálogo com a população, muitas dessas "surpresas" poderão ser multiplicadas por toda a cidade. Porque o Rio precisa "rodar" e a Barra é, realmente, o futuro centro dessa "roda" o Centro do Rio.
Carlos Fernando de Carvalho é presidente da Carvalho Hosken, Engenharia e Construção

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