sábado, 5 de janeiro de 2013

Oásis urbanos, alívio em tempo de calor recorde

05/01/2013 - O Globo

Estudos mostram que praças e parques podem reduzir em até quatro graus a temperatura do entorno

Conforto térmico. Vista aérea do Passeio Público, no Centro: pesquisas indicam que praças e parques devem ter pelo menos 50% de cobertura vegetal para proporcionar redução significativa de temperatura no local e em seu entorno Jorge William/06-09-2012 / O Globo

RIO — Todos os dias o aposentado Roberto Andrade, de 70 anos, chega cedo à Praça Edmundo Bittencourt, no Bairro Peixoto. Lê o jornal, conversa com amigos e desfruta da boa brisa que vem da Rua Anita Garibaldi. Na praça, ele se esquiva do calor inclemente que assola o bairro — principalmente neste verão que bateu o recorde histórico de altas temperaturas (43,2 graus). Estudos acadêmicos comprovam que o Rio tem, de fato, seus oásis urbanos em meio ao asfalto e ao concreto. Essas ilhas verdes de conforto são o tema da segunda reportagem do Verão Rio 2013, uma realização do GLOBO em parceria com a Orla Rio e patrocínio da Skol, do Boticário, da Mormaii Relógios, da prefeitura do Rio e da Riotur, com apoio da Americanas.com.

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Além da Edmundo Bittencourt, áreas como a Praça Serzedelo Correia, em Copacabana, o Passeio Público e o Campo de Santana oferecem aos moradores temperaturas até 4 graus mais baixas do que as registradas no entorno imediato. É o que apontam estudos coordenados pelo físico Oscar Corbella, professor da UFRJ e especialista em bioclimatismo e conforto ambiental.
Praça Paris: beleza e pouca sombra
Corbella ressalta que cada praça fornece um microclima específico, relacionado às correntes de vento, à disposição das construções do entorno e às espécies de árvores. Tida como uma das mais belas do Rio, a Praça Paris, na Glória, é um caso em que a área de lazer não oferece conforto térmico significativo, em função da ausência de árvores frondosas.
— A praça pode ser ótima para o clima da Europa, mas não funciona para a temperatura tropical. Copiar um modelo nem sempre é o mais adequado — ressalta o professor.
A urbanista e arquiteta Virgínia Vasconcellos, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura da UFRJ, pesquisou os impactos de três praças de Copacabana — Lido, Serzedelo Correia e Edmundo Bittencourt — no bem-estar dos moradores. A tese de mestrado mostrou que, embora a Serzedelo tenha a maior área sombreada por vegetação (57,8%), é a Edmundo Bittencourt, com sombra em 51% de sua área, que acaba oferecendo maior conforto térmico aos frequentadores. A área sombreada do Lido é de apenas 26,9%.
— Não há verdades absolutas quando o assunto é conforto térmico. Tudo influencia: as correntes de ar, a distância dos prédios para a praça, o piso. A Edmundo Bittencourt tem a vegetação mais bem distribuída das três áreas estudadas. Uma corrente de ar que entra pela Rua Anita Garibaldi também é um fator que confere mais frescor, apesar de a praça estar mais afastada da orla em relação às outras estudadas — diz Virgínia.
Amendoeira: bom sombreamento
O estudo recomenda que as praças cariocas tenham ao menos 50% de sua área sombreada por árvores. Virgínia Vasconcellos tem se debruçado em pesquisas que apontam os tipos de árvores mais eficazes no conforto térmico. E a malfalada amendoeira (Terminalia catappa) — espécie exótica cujas folhas costumam entupir os bueiros das ruas — cumpre com muita eficiência esta função.
— É uma espécie bastante adaptada à salinidade, tolera o vento. Por isso, se adaptou muito bem ao Rio. Sua copa, distribuída em camadas, permite a passagem do ar e ao mesmo tempo proporciona sombra abrangente. Evidentemente, o seu uso deve ser criterioso, pois é uma árvore frondosa — ressalta a pesquisadora.
Diretor de arborização e produção vegetal da Fundação Parques e Jardins, Flávio Telles observa que a prefeitura encontra gargalos na produção de mudas para a arborização urbana:
— Algumas vezes optamos por espécies que não encontramos no mercado. É uma luta inglória. Há uma demanda crescente por árvores nativas da Mata Atlântica. Trazemos muitas de fora, de São Paulo, Minas Gerais e Paraná. A Região Metropolitana do Rio tem capacidade para ser produtora de espécies.

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