quarta-feira, 15 de maio de 2013

Docas despreza opinião de urbanistas sobre impactos de píer em Y e anuncia início das obras


15/03/201 3 - O Globo

O prefeito Eduardo Paes disse que acha melhor o projeto alternativo, o píer em E, mas alegou que nada pode fazer

Polêmica sobre o desenho começou quando foi constatada a interferência do projeto na região, bloqueando visão do Mosteiro de São Bento, do MAR e do Museu do Amanhã, em construção

CARLA ROCHA

FERNANDA PONTES


O píer em Y (acima) e a opção em E (abaixo)
Foto: Divulgação
O píer em Y (acima) e a opção em E (abaixo) Divulgação

RIO — Sem considerar as críticas de especialistas e de entidades de classe, ações nos ministérios públicos estadual e federal e o próprio interesse de uma área histórica da cidade que passa por revitalização inédita, a Companhia Docas anunciou na terça-feira que terá início no mês que vem a construção do píer em Y no Porto. Com seis vagas para cruzeiros dispostas de forma que causa grande impacto na paisagem, a obra visa a atender a compromissos internacionais assumidos para as Olimpíadas de 2016. Na terça-feira, o prefeito Eduardo Paes lavou as mãos. Ele disse que acha melhor o projeto alternativo, o píer em E, mas alegou que nada pode fazer.

A polêmica sobre o desenho do píer começou quando foi constatada a interferência do projeto na região, onde ficam o Mosteiro de São Bento, tombado; o novo Museu de Arte do Rio (MAR) e, futuramente, o Museu do Amanhã, do arquiteto espanhol Santiago Calatrava, em fase de construção. Iniciativas para uma mudança radical na área, há muito degradada, que podem ficar arranhadas. Arquitetos e urbanistas já perceberam que uma das pernas do Y ficará a menos de 300 metros do Museu do Amanhã. Um debate acalorado tomou conta de uma apresentação feita, no final do mês passado, pelo arquiteto João Pedro Backheuser, sócio da Blac, responsável pela proposta do píer em E, desenvolvida com o escritório Alonso Balaguer. Simulações de imagens já mostraram que, dependendo da posição, os navios parados na orla prejudicam o ângulo de visão tanto do continente para o mar quanto no sentido contrário. Entre outros marcos característicos da ambiência da Zona Portuária, estão o Morro de São Bento, importante ponto de referência urbanístico desde a época colonial, e o casario no entorno da Praça Mauá.

Na terça-feira, houve novas manifestações contrárias às intervenções propostas por Docas. A arquiteta Cêça Guimaraens, professora da UFRJ, disse que o píer em Y é uma excrescência:

— Eles alegam que o prazo é apertado, mas por causa disso vamos ter que conviver pelos próximos 200 anos com essa estrutura aberrante? O Ministério Público precisa tomar providências. O projeto deve ser alterado. O Museu de Arte do Rio e o Museu do Amanhã serão prejudicados. A sociedade precisa ser mobilizada. Estão derrubando o viaduto da Perimetral para construir esse novo monstro?

Depois de representar no Ministério Público Federal contra a obra, o arquiteto Luiz Flórido — da equipe responsável pelo projeto Rio Cidade de Campo Grande, em 1993 — ainda tem esperança de que seja feita alguma coisa:

— Este projeto é um erro enorme. As Olimpíadas vão durar um mês, e o legado ficará para a cidade.
Ontem, o MP Federal não informou sobre o andamento da ação.

Uma ação civil pública, que discutia o píer em Y na Justiça estadual, passou para a esfera federal. A iniciativa foi da presidente da Comissão de Saneamento Ambiental da Assembleia Legislativa (Alerj), deputada Aspásia Camargo (PV), que espera a indicação de um juiz para decidir sobre o caso. Segundo ela, os custos não podem prevalecer sobre outros fatores mais importantes.

— Não podemos, por questões monetárias, gastar menos com uma dragagem para prejudicar a cidade. A paisagem do Rio não tem preço. Há nesse caso um nítido conflito de interesses entre a União e a cidade do Rio — argumentou ela.

O presidente do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil), Sérgio Magalhães, criticou a prática do “fato consumado”:

— Essa prática não pode se tornar uma regra, não é assim que a cidade melhora. Um projeto desses não pode ser produzido por um só setor em função de um cronograma que deveria estar a serviço da cidade, e não o contrário.

Questionado, o prefeito Eduardo Paes, que já foi contra o píer em Y, voltou atrás por não querer comprar briga com o governo federal. Ontem, disse que até considera o píer em E melhor, mas não tem poder de decidir:

— Influência, a gente pode exercer, mas não manda, não define. Quem define é o governo federal. Os nossos apelos têm sido nesse sentido, mas é uma decisão do governo federal. Já pedi 500 vezes, há dois anos, do presidente de Docas do Rio de Janeiro à presidente da República.

Para a historiadora e especialista em política fluminense da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Marly Motta, a situação atual lembra o início do século passado, quando o prefeito Pereira Passos fechou o conselho estadual, o equivalente à Câmara de Vereadores, para não ter oposição a seu radical plano urbanístico, que abriu a Avenida Central, atual Rio Branco.

— Na época, foi dada ao prefeito carta branca para ele levar a cabo todas as reformas necessárias para sanear o Rio. Da mesma forma que a gente se prepara hoje para ficar bem aos olhos do mundo, com Olimpíadas e Copa. Por uma coincidência muito grande, o foco também era o porto. Os navios não vinham para a cidade com medo do mosquito da febre amarela, das pestes. Enquanto Buenos Aires tinha fama de cidade europeia, nós tínhamos fama de cidade africana — observou a historiadora. — Mas, cem anos depois, a frase de Paes é lamentável. Mais uma vez, as instituições e o município se rendem à ideia de que não é preciso debater.

A ex-secretária municipal de Urbanismo Andrea Redondo critica a posição de Paes:

— Não importa se o terreno é ou não de Docas. A gestão do solo é municipal. Paes poderia estabelecer restrições urbanísticas.

O arquiteto João Pedro Backheuser estará numa audiência, dia 29, na Câmara, a pedido da vereadora Laura Carneiro, em conjunto com a Alerj. Ela convocou representantes de Docas, da Companhia de Desenvolvimento Urbano do Porto e de empresas da região.

— Se a conclusão for que o projeto do píer em E é melhor, há tempo para executá-lo — disse Laura.
Backheuser, que também já submeteu o píer em E ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), destaca que o legado que ficará dos Jogos é o mais importante:

— O que se deseja é que tenhamos uma cidade de qualidade, e não apenas para as Olimpíadas.
Na terça-feira, o Iphan, que analisou o projeto do píer em Y, não se manifestou e, mais uma vez, não tornou pública a íntegra do parecer.

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