quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Com apenas 22 lojas abertas, Cobal do Leblon aposta em licitação para sair da crise financeira

Área, que chegou a ter mais de 80 lojas, foi referência em hortifrutigranjeiros e endereço de bares famosos da MPB

POR ELENILCE BOTTARI

13/08/2014 - O Globo


Nos últimos quatro anos, 23 lojas fechadas em ações de reintegração de posse: dos contratos em vigor, um terço está na Justiça - Márcia Foletto / Agência O Globo

RIO — Quem atravessa os longos corredores da Cobal do Leblon percebe o esvaziamento desse hortomercado que, por mais de duas décadas, foi um dos maiores redutos da boemia carioca, ponto de encontro de moradores e já teve mais de 80 estabelecimentos funcionando. Hoje, são apenas 22 abertos. Por todos os lados, é possível ver boxes fechados onde antes havia peixarias, hortifrutigranjeiros, floristas e restaurantes. Só nos últimos quatro anos, 23 lojas foram fechadas em ações de reintegração de posse e devolvidas à Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), administradora de todas unidades no país da extinta Companhia Brasileira de Alimentos (Cobal). Dos contratos ainda em vigor, um terço está em briga na Justiça, por falta de pagamento.

A inadimplência é tamanha que a arrecadação anual de R$ 4 milhões nas duas unidades (Leblon e Humaitá) mal cobre as despesas com a manutenção dos dois galpões, segundo dados da Conab. Esmagados pela concorrência de quatro supermercados no bairro e pela falta de recursos para investimentos, lojistas e a direção da Conab apostam suas últimas fichas na realização de uma nova licitação para a locação de lojas como forma de revitalizar os 7.356 metros quadrados daquela unidade no coração do Leblon.

ENTRAVES JURÍDICOS E ADMINISTRATIVOS

Mas o projeto ainda esbarra em entraves jurídicos e administrativos. Antes de fazer qualquer intervenção na área, são necessárias reformas na construção, tombada em 2011 pelo prefeito Eduardo Paes. Além disso, a Conab enfrenta outra pendenga administrativa: tanto o imóvel do Leblon como a unidade do Humaitá são frutos de uma permuta realizada em 1971 pelo então presidente da República, general Emílio Garrastazu Médici, e o governo do estado. O processo administrativo, no entanto, nunca chegou ao fim.

— Já tivemos duas reuniões com a Casa Civil do governo do Rio e nesta quarta (hoje) teremos outra. Estamos tentando resolver esse processo ainda este ano. É claro que isso não inviabiliza a reforma, mas atrapalharia uma parceria com a iniciativa privada. Além disso, iremos apresentar esta semana o esboço do projeto de reforma do galpão do Leblon ao Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio — explicou o diretor Administrativo e Financeiro da Conab, Lineu Olímpio de Souza.

A ideia é que ainda neste ano ou no início de 2015 a companhia abra licitação para a locação de lojas. Mas o projeto de uso do espaço ainda não está fechado.

— Estamos fazendo pesquisas com a comunidade, ouvindo a prefeitura e o estado para buscar uma solução de uso mais adequado, para ajudar a manter as lojas, mas também atender às novas necessidades — explicou Lineu, que afirma que todas as unidades do país sofreram perdas com o crescimento das redes de supermercados.

ENDEREÇO DE BARES FAMOSOS

Inaugurada em 1972, com 128 unidades (entre lojas e boxes) e 14 salas distribuídas em 3.250 metros quadrados de área edificada e 2.362 de estacionamento, a Cobal do Leblon foi durante muito tempo uma referência em hortifrutigranjeiros para o bairro e endereço de bares famosos da MPB, como o Arataca, onde o maestro Tom Jobim marcava presença nas rodas de samba e MPB com artistas do bairro. Hoje, no entanto, apenas 22 empresas continuam no local. Para sobreviver, muitos mudaram de ramo, como o comerciante Gil Pirozzi, que em 1977 tinha um boxe de frutas e hoje é dono da Delly Gil, uma delicatessen que ocupa o espaço de sete lojas.

— Aqui vivia cheio, mas foi esvaziando. Sou um dos que conseguiram crescer porque mudei para um produto de melhor preço — disse Gil, que aposta na licitação para renovar o espaço. — Temos 15 mil moradores no Selva de Pedra, aqui do lado. Precisamos criar atrativos para que voltem a frequentar a Cobal.

FRAMBOESA DO CHILE PARA PRINCESA

Um dos remanescentes da época áurea, há 40 anos o comerciante Ari Sérgio Muniz de Carvalho vende frutas e legumes. Ele diz que só permanece no local por causa dos clientes tradicionais e da fama de conseguir qualquer produto:

— Há uns dez anos, uma princesa veio ao Brasil e queria um tipo de framboesa. Descobri que era uma fruta típica do Chile. Liguei para lá e consegui trazer a mercadoria para ela. Acredito que a licitação vai revitalizar o comércio.

A arquiteta Soraya Hirsch, há dois meses na administração da Conab Leblon, está fazendo pequenas obras:

— Com a reintegração de posse de algumas lojas, pintamos fachadas e iniciamos reparos. Estamos estudando modificações para padronizar as futuras locações, com setores de hortifrútis, pets, restaurantes.

Pioneira, a Cobal do Humaitá foi inaugurada em 1971, com 10.771 metros quadrados, sendo 6.877 edificados e 3.842 de estacionamento. Ali , há três quiosques, 97 boxes, 84 lojas e sete salas. Mesmo tendo grande movimento como polo gastronômico, enfrenta problemas com a inadimplência e a falta de manutenção. Os lojistas pediram uma reunião com o governador Luiz Fernando Pezão para tentar encontrar soluções.

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