quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Impasse no Porto

03/12/2014 - O Globo

As obras do Porto estão paradas em seis pontos à espera do sinal verde do Iphan, que analisa se áreas têm valor arqueológico. Impasse pode afetar cronograma até 2016. No canteiro de obras em que se transformou o Rio, há seis locais onde, desde setembro, não se ouve o barulho das máquinas que deveriam estar com motores ligados a todo vapor. O motivo da estranha calmaria é simples. Pelo fato de todos os pontos estarem localizados na Zona Portuária, área de recentes descobertas arqueológicas, nenhum deles pode sofrer intervenções sem a autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Quem passa, por exemplo, no último quarteirão da rua Pedro Ernesto, na Gamboa, já consegue ter a dimensão do atraso. Em pouco mais de cem metros percorridos, há uma cratera aberta com cerca de um metro de altura em quase toda a extensão. Por ali, arqueólogos vasculham todo o terreno em busca de descobertas históricas. As obras só podem prosseguir depois de um parecer do instituto atestando que no local não existe um sítio de valor arqueológico. E esse caminho quase sempre é sinuoso, muitas vezes esbarrando em impasses.

VIA EXPRESSA TEM TRÊS PONTOS PARALISADOS

O ponto mais preocupante ocorre na Avenida Rodrigues Alves, de onde foi retirado o Elevado da Perimetral. No local onde está sendo construída a via expressa, há três setores onde os trabalhos estão suspensos. O primeiro deles está logo na entrada do túnel, em frente ao armazém número 8. Devido a alguns achados no local, desde agosto não há nenhum maquinário para prosseguir os trabalhos. Na outra extremidade da obra subterrânea, próximo à Praça Quinze, uma área avaliada como sendo de valor histórico foi demarcada pelos arqueólogos — segundo uma fonte ligada à obra, exatamente nesse local ficava um pilar de sustentação do antigo Elevado da Perimetral. Outro ponto de interdição na Rodrigues Alves ocorre em um terreno em frente à sede do Primeiro Distrito Naval. Completam a lista de obras suspensas duas regiões: uma na Rua da Gamboa e outra da Rua da Mortona.

— Ninguém é contra as intervenções do Iphan, que está à frente de um trabalho importante na cidade. Mas as avaliações são muito demoradas e estão prejudicando o andamento de todas as intervenções na Zona Portuária. Na saída do túnel da via expressa, na Praça Quinze, havia um pilar de sustentação da antiga Perimetral. Se sustentava o viaduto, por que não é possível construir? — questiona a fonte ligada às obras que pediu para não ter o nome divulgado.

Diante das reclamações na demora dos laudos de análises das áreas com valores arqueológicos, o superintendente do Iphan no Rio, Ivo Barreto, argumenta que as paralisações feitas nos últimos meses ocorreram por obras iniciadas sem o parecer do órgão:

— As áreas nas duas extremidades do túnel da via expressa foram suspensas porque a prefeitura iniciou a obra sem o aval do Iphan. A culpa pelo atraso não é nossa — rebate Barreto. — Os outros pontos onde fomos obrigados a parar a obra ocorreram porque o cronograma que recebemos da prefeitura mudou.

Segundo Barreto, as intervenções nas ruas da Gamboa e da Mortona não foram incluídas como análises "prioritárias" pela prefeitura no primeiro cronograma recebido pelo Iphan.

— Os dois casos são exemplos de mudanças de cronograma que o Iphan não pode prever. Precisamos adaptar toda uma escala para atender a prefeitura. Fazemos um trabalho técnico que demanda tempo e isso pode refletir em achados históricos para o país. Foram as análises do Iphan que deram origem ao Cais do Valongo e ao Cais da Imperatriz — ressalta.

Mas os problemas não se limitam às autorizações do Iphan. Ao longo dos últimos anos, as obras da Zona Portuária sofreram uma série de ajustes de prazos. A adequação nos cronogramas atendeu a exigências, por exemplo, do Ministério Público, que determinou a redução do impacto das demolições. Isso levou a mudanças nas interdições e na implosão do primeiro trecho do Elevado da Perimetral.

Além de toda a cidade sofrer com o atraso nas obras, os moradores das regiões vivem diariamente o caos das intervenções. Proprietário de um bar na Gamboa, Antônio Carlos Pessoa afirma que perdeu 50% dos clientes só em 2014.

— Quem é que deseja vir a um local onde há uma obra permanente? — pergunta Pessoa.

Dono de uma residência na Rodrigues Alves, Edson Albuquerque não vê a hora de acabar as obras em frente à sua casa:

— Pior que ter uma intervenção em frente ao local onde moro é ver uma obra que não anda.

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