segunda-feira, 16 de março de 2015

Marco de Niterói, Caminho Niemeyer criado há quase 20 anos está inacabado até hoje

Com gastos superiores a R$ 12O milhões, projeto possui instalações fechadas e obras que ainda não começaram

POR GABRIELA LAPAGESSE

16/03/2015 - O Globo


O Teatro Popular do Caminho Niemeyer - Felipe Hanower / Agência O Globo

NITERÓI - O segundo maior conjunto de criações arquitetônicas do arquiteto Oscar Niemeyer — atrás apenas do complexo criado em Brasília — teve o projeto concebido em 1997, apresentado em 1999 e sua construção iniciada em 2001. Depois de inúmeros impasses, até hoje o Caminho Niemeyer não foi concluído. Algumas instalações do projeto sequer saíram do papel, enquanto outras não estão ocupadas como idealizou o arquiteto. O valor inicial das obras era de R$ 65 milhões. Em 2011, ele já tinha chegado a R$ 120 milhões. A atual gestão da prefeitura não soube informar o valor total de investimento até agora — disse apenas que gasta cerca de R$ 1,5 milhão por ano em manutenção — nem quando todo o complexo estará pronto. Para representantes do escritório Oscar Niemeyer, no entanto, faltou investimento tanto da iniciativa pública quanto da privada para a conclusão do conjunto.

O Caminho Niemeyer tem uma extensão de 11 quilômetros, que vai do Centro à Zona Sul de Niterói. Ele engloba o Museu de Arte Contemporânea (MAC), a Estação Hidroviária de Charitas, o Centro Petrobras de Cinema (Museu do Cinema) e a Praça JK, além de todo o complexo arquitetônico da Praça Popular, atrás do Terminal João Goulart. Segundo o neto do arquiteto, Paulo Sergio Niemeyer, que já foi presidente executivo do Caminho e trabalha atualmente no escritório que leva o nome do avô, a não conclusão das obras é uma questão complexa.

— A gente realmente não entende o motivo de tanto atraso. Houve muito impasse em todo este tempo. Foram três gestões diferentes da prefeitura, e a cada mudança, claro, atrapalha um pouco. Obras que começaram tiveram que ser interrompidas. Sem o apoio de empresas privadas, muita coisa não vai para frente — lamenta.


Concluída, a Fundação Oscar Niemeyer nunca funcionou por impasses coma prefeituraFoto: Pedro Teixeira / Agência O Globo


O Teatro Popular, inaugurado em 2007 com gastos de R$ 13 milhõesFoto: Pedro Teixeira / Agência O Globo


Centro Petrobras de Cinema: exterior pronto há 10 anos, nunca foi aberto ao público. Previsão de...Foto: Hudson Pontes / Agência O Globo


Memorial Roberto Silveira: inaugurado em 2003, prédio abriga cerca de 200 mil títulos digitalizados...Foto: Pedro Teixeira / Agência O Globo


Praça JK: pichações e abrigos para moradores de ruaFoto: Pedro Teixeira / Agência O Globo


Estação Hidroviária de Charitas: dois mil metros quadrados e salão panorâmico de embarqueFoto: Pedro Teixeira / Agência O Globo


Com R$ 3 milhões investidos pela Arquidiocese de Niterói, a Catedral São João Batista deve ficar...Foto: Pedro Teixeira / Agência O Globo

Para o arquiteto Jair Valera, que trabalhou durante 20 anos com Oscar Niemeyer e é o responsável técnico do escritório, tantos atrasos têm uma explicação:

— Só pode ser falta de investimento mesmo. Tanto do poder público quanto do setor privado. Oscar imaginava que o Caminho atrairia, sim, muito interesse de investidores, mas, na prática, isso não aconteceu. O que é uma pena. Niemeyer era tão apaixonado por Niterói e por esse projeto que, por volta de 2004, montou um escritório dele lá, para que pudesse ficar dois dias da semana por perto e, assim, tentar pressionar para que as obras fossem concluídas.

A Praça Popular, localizada no Centro de Niterói, é o espaço onde está concentrada a maior parte do Caminho. Lá funciona, atualmente, o Memorial Roberto Silveira, inaugurado em 2003 e que tem cerca de 200 mil títulos digitalizados sobre a cidade e sobre o ex-governador Roberto Silveira. No local também funciona o Teatro Popular, que foi criado em 2007, teve de ser fechado por falta de condições de uso e foi reaberto em 2011. O custo de sua construção foi avaliado em R$ 14 milhões, sendo R$ 9 milhões custeados pela prefeitura e o restante, pelo Ministério do Turismo. Atualmente ele abriga uma série de atividades culturais, inclusive na parte externa, incluindo shows. Também foi criado e está em funcionamento o Centro de Atendimento ao Turista (CAT), que faz cerca de 15 mil visitas guiadas por ano. Segundo o atual presidente executivo do Caminho Niemeyer, Marcos Gomes, mais de 300 mil pessoas já circularam pela praça desde que assumiu a atual gestão.

— Temos promovido diversas atividades culturais e as pessoas vêm. O Caminho virou um ponto turístico de verdade. Se passar aqui a qualquer hora de qualquer dia, vai ter algum turista querendo conhecer. Muita gente de Niterói também vem para cá para andar de skate, por exemplo. Estamos fomentando a cultura, através de shows, exposições — relatou.

Em entrevista ao GLOBO em 2011, Oscar Niemeyer disse que gostaria de ver pronta a torre-restaurante, também localizada na Praça Popular. Esta parte do projeto não vingou. O mesmo aconteceu com a construção da capela flutuante e da Igreja Batista. Já a Catedral São João Batista, também prevista no projeto original, deve ser concluída em 2017. Segundo a Arquidiocese de Niterói, já foram investidos R$ 3 milhões, e o processo está em fase de entrega de documentos. Logo após a Semana Santa, será construída uma capela para os fiéis usarem enquanto a catedral não fica pronta.

A Fundação Oscar Niemeyer também estava prevista para funcionar na Praça Popular, mas isso nunca aconteceu. De acordo com a instituição, o arquiteto criou um projeto que contemplava uma enorme cúpula de exposições e um anexo para acervo, atividades administrativas, salas de aula e auditório. A promessa era de ter todo o apoio da prefeitura para que a fundação se estabelecesse na cidade. Em 2011, segundo a instituição, depois de alguns impasses com a gestão do Caminho, a fundação optou por não ter sede no local e hoje funciona na Glória, na Zona Sul do Rio. A cúpula que ela utilizaria hoje abriga funcionários da Secretaria de Urbanismo, que passaram a ocupar o local após o incêndio que atingiu o prédio da prefeitura. A intenção, segundo a atual gestão do Caminho, é transformá-lo no Museu da Ciência e do Conhecimento, ainda sem data para ser inaugurado. O prédio administrativo em anexo atualmente é ocupado pela gestão do Caminho e, para o início do ano que vem, a ideia é que ele se transforme num espaço de educação pública, com atividades para a reciclagem de professores, por exemplo.

Segundo Paulo Sergio, o neto de Niemeyer, pequenas alterações feitas ao longo do tempo descaracterizaram um pouco o projeto feito pelo avô:

— O projeto é da prefeitura. O ideal seria que se qualquer mudança que fosse feita, o Escritório Oscar Niemeyer e a Fundação Oscar Niemeyer fossem consultados. Mas isso não acontece. Por exemplo, o guarda-corpos do Teatro Popular foi alterado. Isso muda a concepção original do projeto. Pode parecer que é apenas um detalhe, mas não é. Outro exemplo: a cúpula onde deveria funcionar a Fundação Oscar Niemeyer e o prédio anexo. Eles deveriam funcionar de maneira complementar, foram criados para isso. No final das contas, vão dar atividades diferentes para cada uma das construções, perde o sentido — comentou.

Um dos xodós de Niemeyer, o Centro Petrobras de Cinema ou Museu de Cinema foi orçado em R$ 12 milhões e construído com recursos da Petrobras. Com a parte de fora pronta há dez anos, o local nunca foi equipado nem aberto ao público. A empresa Reserva Cultural venceu a licitação e vai fazer a obra, que contará com cinco salas de cinema e deve custar outros R$ 12 milhões. A promessa é que ele seja aberto ao público no segundo semestre de 2016. A parte do rolo ficará sob a responsabilidade da Secretaria de Educação e da Subsecretaria de Ciência e Tecnologia. No local será implantado o Núcleo de Produção Digital (NPD), um museu do documentário brasileiro, focado no conhecimento da rede escolar, e um auditório multiuso preparado também para festivais de filmes e uso pela rede de educação. Segundo a prefeitura, o edital está sendo elaborado. O atual presidente executivo do Caminho Niemeyer lamenta o atraso neste prédio:
 
— Tenho certeza de que a abertura do Museu do Cinema vai mudar a cara de Niterói. As pessoas querem ter opções de cinema, vai ser um lugar que vai respirar cultura. Todos esses atrasos aconteceram antes da nossa gestão e é realmente lamentável por todo o potencial que o espaço pode dar para a região de São Domingos.

O MAC, construído em 1996 e mundialmente conhecido, também faz parte do Caminho Niemeyer e é, hoje, um dos prédios que apresentam problemas. Fechado desde 13 de fevereiro, está com todo o circuito de ar condicionado pifado, apresenta infiltrações na rampa e desnível no mezanino. Mesmo diante dos anúncios de reforma do MAC, João Sattamini, dono de uma das coleções de arte contemporânea mais importantes do Brasil, que mantém 1.500 peças no museu, reclamou que o sistema de ar-condicionado sempre foi um problema e que, diante da falta de condições para abrigar sua coleção, decidiu tirá-la de lá. O prédio será tombado pelo Iphan ainda este mês e, segundo a direção da instituição, passará por uma grande reforma já para comemorar seus 20 anos, no ano que vem. A previsão inicial é que ele fique fechado por três meses, mas esse prazo pode se estender.

Na Praça JK, o problema é outro. Apesar de finalizada e de contar com estátuas do ex-presidente Juscelino Kubitschek e de Niemeyer, transformou-se em dormitório de moradores de rua e apresenta muito lixo e pichações, além de ser um ponto onde ocorrem assaltos com frequência. Em nota, a prefeitura informou que faz um trabalho constante de acolhimento de moradores de rua. Também pronta, a estação de Charitas é a única instalação do Caminho aparentemente sem problemas.

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