segunda-feira, 15 de junho de 2015

No novo Centro do Rio, a cidadania será prioridade

15/06/2015 - Valor Econômico

O centro do Rio de Janeiro passa por uma nova configuração de sua infraestrutura de mobilidade urbana que vai mudar a forma como os cariocas transitam pela região. De acordo Alberto Silva, presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (CDURP), o novo ordenamento urbano tem foco no cidadão e coloca o automóvel em segundo plano, privilegiando o transporte público coletivo, valorizando a ideia de morar perto do trabalho, criando mais espaços para pedestres, implantando 17 km em ciclovias e integrando os meios de locomoção na área.

A principal novidade é o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), com função integradora de todos os modais e ligando o Centro e a região portuária em 28 km de trilhos e 32 paradas. O conceito é de transporte público integrado ao conectar metrô, trens, barcas, BRTs, teleférico do Morro da Providência, redes de ônibus convencionais e aeroporto (Santos Dumont). Com funcionamento 24h por dia, sete dias por semana, o sistema terá capacidade de transportar 300 mil passageiros por dia.

"Hoje os modais concorrem entre si. Com o VLT, haverá uma racionalização no número de ônibus. O usuário poderá chegar de trem à Central ou de ônibus à rodoviária, e o VLT atuará na distribuição até os destinos", diz Silva. O VLT ligará os bairros do Porto Maravilha ao centro financeiro da cidade e ao Aeroporto Santos Dumont, passando pelas imediações da Rodoviária Novo Rio, Praça Mauá, Avenida Rio Branco, Cinelândia, Central, Praça Quinze e Santo Cristo. O BRT Transbrasil também chegará à região, ligando Deodoro ao Santos Dumont.

A distância média entre as paradas do VLT será de 400 metros. Cada composição comporta 420 passageiros, e o tempo máximo de espera entre um trem e outro vai variar de três a 15 minutos, de acordo com a linha. Os primeiros trilhos já foram instalados no entorno da Rodoviária Novo Rio, no Santo Cristo, e um protótipo do VLT ficou em exposição na Praça da Cinelândia. Serão 32 trens bidirecionais com sete módulos articulados e oito portas por lateral.

O pagamento será feito com cartões validados em máquinas próprias, no interior do veículo, sistema inédito no país. A ideia, segundo Rafael Picciani, secretário municipal de transportes, é que o VLT seja integrado ao bilhete único para não onerar os passageiros. A previsão é de que o sistema esteja em operação plena em 2016, ao custo de R$ 1,157 bilhão, sendo R$ 532 milhões com recursos federais do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) da Mobilidade, e R$ 625 milhões viabilizados por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP).

As transformações na infraestrutura do Centro do Rio incluem, ainda, a substituição do Elevado da Perimetral por conjunto que inclui a criação da Via Expressa a partir da atual Avenida Rodrigues Alves e de uma nova rota paralela, a Via Binário do Porto.

A Via Expressa servirá a quem cruza a área como rota de passagem. Com a função de ligar o Aterro do Flamengo à Avenida Brasil e à Ponte Rio-Niterói, terá 6.847 metros de extensão, com três faixas por sentido. O Túnel da Via Expressa terá 3.022 metros, do atual Mergulhão da Praça XV ao Armazém 8 do Cais do Porto. A parte subterrânea permitirá a transformação do trecho da Praça Mauá ao Armazém 8 em passeio público de 3,5 km de extensão para circulação de pedestres, ciclistas e VLT.

O trânsito que flui hoje pela Perimetral e pela Avenida Rodrigues Alves passará a circular pela nova Via Binário do Porto, que liga a Rodoviária Novo Rio à Avenida Rio Branco em um dos sentidos. Paralela à Avenida Rodrigues Alves, a Via Binário do Porto tem 3,5 Km de extensão, três faixas por sentido e várias saídas para a distribuição interna do trânsito na Região Portuária.

Em 2016, quando a Via Expressa substituirá definitivamente o elevado da Perimetral, a Via Binário do Porto assumirá a função de circulação interna dos bairros portuários e seus acessos de entrada e saída do Centro.

No dia do aniversário da cidade, a prefeitura inaugurou o Túnel Rio450, trecho que completa a Via Binária do Porto. Com 1.480 metros de extensão e fluxo projetado de 55 mil veículos por dia, opera em sentido único, do Centro para o Viaduto do Gasômetro. É o primeiro túnel subterrâneo da cidade.

"É importante perceber que, com o novo ordenamento urbano, há uma outra lógica. A ideia é que o cidadão compare o tempo gasto com o trânsito e o custo com combustível e estacionamento com o custo e a facilidade do transporte público e opte por deixar o carro em casa", diz Silva.

Ele observa que é difícil o poder público forçar a redução do número de automóveis quando não há uma oferta de transporte público de qualidade, mas quando ela existe a migração é natural. "A estação do metrô de Ipanema acabou com os congestionamentos que havia no Aterro do Flamengo", conclui.

Medidas extremas podem restringir uso de automóvel

Apesar de todas as intervenções para melhorar a mobilidade urbana no Centro do Rio, os planejadores do trânsito na cidade não descartam o uso de medidas restritivas ao uso do automóvel particular como pedágios, rodízios, fim de vagas de estacionamento ou a simples proibição do trânsito dos veículos. Segundo Rafael Picciani, secretário municipal de Transportes, são medidas extremas que poderão ser tomadas apenas se as novas políticas de intervenção em curso não forem suficientes para que o trânsito flua na região.

"Com a restruturação que estamos promovendo, o centro concentra o cenário de tudo o que a gente espera ver em toda a cidade: um sistema de transportes de alta capacidade que integre todos os modais. Antes de qualquer medida de restrição, vamos priorizar o transporte público. Temos de mostrar para a população a eficiência desse sistema inteligente", diz Picciani. Ele ressalta que o VLT cumpre a função de integração e de acabar com longas caminhadas e a necessidade de ônibus.

"Estamos promovendo uma racionalização das mais de cem linhas de ônibus que circulam pelo Centro. Das 41 linhas que partem da Zona Sul, haverá apenas seis linhas troncais; e, com a chegada do BRT Transbrasil ao Centro, em 2017, cerca de 150 linhas da Zona Norte e da Baixada serão substituídas. Mas dependemos que o Estado e os municípios também façam essa racionalização", diz.

Paralelamente, a prefeitura reduziu os espaços para automóveis, com o fim de vagas nas vias, de estacionamentos irregulares e a criação de corredores expressos para os ônibus BRS nas principais artérias do Centro. O objetivo é reduzir o número de carros na área central da cidade.

"Com os novos INVESTIMENTOS de BRT Transbrasil, metrô e VLT, temos condição de oferecer transporte público de melhor qualidade e estimular que a pessoa deixe o automóvel em casa", diz Alexandre Sansão, sub-secretário de planejamento da secretaria municipal de Transportes. As demais alternativas, como pedágio e rodízio, também são estudadas, mas, no momento, as prioridades são as medidas de estímulo ao transporte público. "Mas pode ser que, num outro momento, a prioridade passe a ser uma medida de restrição ao automóvel", diz Sansão.

Para Sérgio Besserman, presidente da Câmara Técnica de Desenvolvimento Sustentável da Prefeitura do Rio de Janeiro, uma coisa está diretamente relacionada à outra. Ele acredita que, quando o trânsito ficar muito bom, todo mundo vai pegar o carro de novo

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