Aumenta número de bandidos de outros estados e até países presos pela PM do Rio: foram 209 no ano passado; 24% a mais do que em 2024


26/01/2026 - O Globo

Por Anna Bustamante — Rio de Janeiro

Secretário diz que 'forasteiros' pagam para se refugiar, e que Alemão e Penha são os complexos mais procurados


Um dos chefes do tráfico em Goiás, Cascão foi preso em morro de Santa Teresa
Foto: Divulgação/PM


Na megaoperação de 28 de outubro de 2025, nos complexos do Alemão e da Penha, 62 criminosos de outros estados foram mortos em confrontos e 27 acabaram capturados. Prisões como estas, realizadas no ano passado, reiteram o que operações em comunidades já vêm demonstrando: o aumento do número de bandidos de fora do estado e até do país no Rio. Só a Polícia Militar prendeu 209 forasteiros em 2025, 41 a mais do que no ano anterior. PM e Polícia Civil analisam o fenômeno.

Os criminosos de outros estados e até do exterior não apenas se escondem no Rio, mas também pagam para operar suas quadrilhas a partir daqui. Segundo a PM do Rio, traficantes ligados ao Comando Vermelho (CV) que chegam ao estado desembolsam taxas aos chefes locais em troca de proteção, estrutura e acesso a uma base considerada mais robusta para comandar à distância crimes em suas regiões.

O secretário de Polícia Militar do Rio, coronel Marcelo Menezes, explicou que, do total de presos de fora do estado ano passado, 101 foram capturados em cumprimento de mandados de prisão e 108, em flagrante. Na avaliação de Menezes, os números não são episódicos, mas refletem uma mudança estrutural na dinâmica das facções, especialmente do CV:

— O Comando Vermelho é uma facção que surgiu e se organizou no Rio. As principais lideranças continuam aqui porque essa vinculação hierárquica ainda parte do estado, e, nos últimos anos, se comportam de maneira expansionista. Muitos criminosos de fora vêm justamente para se aproximar dessas lideranças.

‘Efeito UPP’

Segundo o secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, de setembro de 2024 até agora, quando foram intensificadas operações, como a Torniquete e a Contenção, 521 criminosos de outros estados foram presos, somente pela Polícia Civil.

— Percebemos, por dados de inteligência, que, com a vinda desses criminosos para cá, houve uma aliança estratégica, principalmente do CV, com outras facções de todo o país. Fazendo um paralelo, é como que nós tivemos aqui com o “efeito UPP”, onde o crime saiu, principalmente da capital, e se expandiu para Baixada, São Gonçalo, interior, Região dos Lagos, com emprego de fuzis, dominando regiões, com disputa territorial. Agora, no caso dos criminosos de outros estados escondidos aqui, temos esse mesmo efeito, que trouxe essas lideranças de fora para cá — analisa Curi.

O secretário diz que o CV está presente em quase todos os estados da federação.

— Eles vêm aqui, pegam o know-how e, depois, muitos voltam para os seus estados de origem, mas lideranças acabam permanecendo aqui, dando ordens para execuções e para uma série de outros crimes em seus estados de origem — acrescenta.

De acordo com a PM a maior parte dos criminosos de fora do Rio presos em 2025 veio do próprio Sudeste: 99 dos 209 presos são da região. Dentro desse grupo, Minas Gerais aparece no topo, com 61 presos. Na sequência aparecem São Paulo, com 26 presos, e Espírito Santo, com 12. Fora do Sudeste, os dados indicam uma presença relevante de criminosos do Nordeste, especialmente do Ceará (8 presos), Bahia (11), Paraíba (7), Pernambuco (5), Maranhão (3) e Rio Grande do Norte (1).

O painel da PM mostra ainda 39 estrangeiros, capturados em operações ao longo de 2025. Entre eles, a Colômbia aparece disparada no topo, com 23 presos, todos em flagrante. Na sequência aparecem Chile (9 presos), Venezuela (2), Argentina (2), Uruguai (1), Alemanha (1) e Angola (1).

Ladrões e homicidas

O secretário da PM explica que a maioria dos bandidos que busca refúgio no Rio é chefe de alguma região. No entanto, o estado também tem atraído assaltantes de veículos — que atuam tanto no roubo quanto na clonagem — e homicidas, contratados para eliminar rivais e participar de disputas territoriais.

De acordo com Marcelo Menezes, para se estabelecer no estado, os bandidos precisam pagar uma espécie de taxa às chefias locais, como forma de garantir proteção e acesso à estrutura criminosa já existente. Segundo ele, esse valor não é fixo, variando conforme a comunidade e a liderança envolvida, e pode incluir participação nos lucros das atividades criminosas.

Menezes acrescentou que esse modelo de atuação não se restringe a uma única facção. Investigações em andamento também acompanham o mesmo movimento no Terceiro Comando Puro (TCP) em outros estados, como Bahia, Espírito Santo e Rio Grande do Norte, além da presença de lideranças da facção no Rio. Mesmo escondidos no Rio, esses “forasteiros” continuam a comandar suas quadrilhas nos estados de origem.

Segundo o secretário, os complexos do Alemão e da Penha se consolidaram como centros de comando e coordenação:

— Esses territórios são procurados como refúgio e também por prestígio dentro da organização. É ali que eles conseguem interagir com as lideranças e tomar decisões que impactam outros estados.

Prisões este ano

A prisão de Cássio Dumont Martins Tavares, o Cascão, ilustra esse cenário. Apontado como um dos principais chefes do tráfico em Goiás, ele foi preso na última semana escondido no Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, durante ação da PM, com apoio da inteligência goiana.

Segundo as investigações, Cascão comandava o tráfico interestadual na modalidade “delivery”, modelo que amplia a capilaridade da venda de drogas e dificulta a repressão policial. Ele também participou da fuga da Penitenciária de Trindade, em Goiás, em 2018, quando 19 presos escaparam.

Além dele, o foragido Rafael Amorim de Brito, o Rafão, considerado o criminoso mais procurado do Mato Grosso, foi preso na primeira semana de 2026 em Itaboraí. O suspeito, que estava escondido no Alemão, havia deixado o complexo para assaltar uma residência.